Casamento Caipira – Teatro

Personagens:
Noivo (Carmelindo Bode)
Noiva (Janeirinda Ondulada)
Pai e Mãe do Noivo (Antonio Carneiro e Josefa Ovelha)
Pai e Mãe da Noiva (Dobrandino Liso e Jacutinga Crespa)
2 casais para padrinhos
Juiz (Executando Legislativo Judiciário)
Auxiliar do juiz

Carmelindo: (falando com sua mãe) Ai, mãe. Eu to cuma dor no estomo. Sabe aquelas dor qui vai subindo, subindo, subindo, asdespois vem deceno, deceno, deceno… Pois é bem dianssim queu to.

Josefa: O que que ocê ando cumeno? Aposto que simpanturro cum aquelas porcariada la do maquedonar… O intão oce ta percisando faze uma limpeza dos intestino. Vem cá queu vô te dá uns quatro cumprimido de lacto-purga cum meio copo de óio de rícino. Amanhã ocê tira o dia no banhero, mas despois vai ta novinho im foia.

Carmelindo: (choroso) Num é nada disso mia mãe. A dro de estomo queu to sintino é de sardade da minha Janeirinda. Eu só quiria ta cum ela, mas ela diz que não que mais sabe di eu. Aiais, manhe, desde aquele dia que ela me levo pra anda na tar de roda-gigante lá no Parque Barigui qui ela me abandono. Me dexo mais perdido que cachorro na procissão. I é prisso que to desse jeito. Ai, manhe, eu to sofreno muito. Já num sei mais que que eu vo faze da minha vida.

Josefa: (embravecendo) Isso num pode fica dianssim. Eu vo chama teu pai i ele vai te que arruma um remédio. A Janeirinda num pode faze um mar desse pra esse mimo que ocê é, meu fio.

Carmelindo: (meio espantado) Que qui oceis vão faze, manhe? Eu num quero fica sem minha Janeirinda Ondulada, aquele primor de muié, Ce sabe, manhe que ela tem um chero no sovaco que é quem nem a meia do pai despois de uma semana de uso? É um prefume que num tem dinguar. Isso sem conta o prefume acebolado que sai da boca dela. É prisso queu amo ela.

Josefa: (carinhando o filho) Ô, meu tesoro. Ce tem os mermo gosto do teu pai. Foi bem prisso que ele singancho neu e nois juntemo as troxa de ropa i os chero também. Afinar, teu pai tamém tem uns chero muito do gostoso. Mais vamo dexá de lado ais coisa boa da vida i vamo trata de arruma tua vida. (grita) TONHOCARNERO!… TONHOCARNERO!… (meio histérica) TONHOCARNERO!

Antonio: (chega com ar cansado e se espreguiçando) Ara, muié. Que gritedo sim sintido esse? Inté parece que o munto ta si acabano… Despois inda me tira da concentração… Eu tava quase fisgano aquele pexe que escapo treisantionte… I intão ocê me acordo. Ara… Ispero que seja prum bom motivo.

Josefa: (irritada) Craros que é, seu priguiçoso duma figa. O teu fio ta sofreno i ocê fica drumindo. (explicando) A Janerinda levo nosso mimo pra anda de roda-gigante i agora num qué mais sabe dele. Oce tem que toma uma pruvidência.

Antonio: Mais quê que ce qué queu faça?

Josefa: (ainda mais irritada) Vai lá i trata de faze cum que ela arremedeie o mar que feiz. Mior ainda. Ela vai te que casá co nosso Carmelindinho, quera o num quera.

Antonio: Ta bão, muié. Eu vô lá prosiá co seu Dobrandino e co’a dona Jacutinga. Mais, muié, i si eles num quisé casá a Janerinda co nosso Carmelindo?

Josefa: (irritada) É só o que me farta… É craro que eles vão quere casá a Janerinda co nosso Carmelindo. Afinar, ele é o mior partido aqui da região. Ele já se deformo no jardim da infância, sabe faze ovo cuzido e até quase aprendeu a faze gelo. Quim é que num vai quere casá uma fia cum uma frô de home como o nosso Carmelindo?…

Antonio: (convencido) Ce tem razão, muié. Num tem partido mio que o nosso fio. Inté eu to cum vontade de casá cum ele. Eu vô lá fala co Dobrandino e cá Jacutinga. (sai em direção ao local onde estão Dobrandino e Jacutinga.)

Antonio: (dirigindo-se a Dobrandino e Jacutinga) Tarde so Dobrandino e dona Jacutinga.

Dobrandino: (desconfiado) Tarde. Mais quê que ocê veio fazê aqui?

Jacutinga: (ainda mais desconfiada) Ce ocê ta quereno dinhero, bateu na porta errada. Procê nóis num imprestamo nem água.

Antonio: Ara, ceis dexim de ser mão de vaca. I asdespois eu num vim pidi nada imprestado. Eu vim aqui pra mor de que a fia dóceis, a Janerinda, arremedeie o mar que feiz pro meu Carmelindo. I eu num saio daqui sem que ela case co Carmelindo.

Jacutinga: Mais eu num to intendendo… Que mar que nossa Janerinda pudia faze pro traste do Carmelindo?

Josefa: (chegando) Oce dobre a língua, sua cascavér. O meu Carmelindo é a coisa mais fina que inziste por essas redondeza. Traste é a Janerinda, que levo o Carmelindo pra anda de roda-gigante i agora num que mais sabe de nada co’ele. I se ela num casá cum ele nóis vamo istorá a quarta guerra mundiar.

Dobrandino: Qui história é essa de casá a minha Janerinda co Carmelindo. Quar é a posição sociar que mia fia vai te se casando co Carmelindo? I eu já prometi ela im casamento pro primo do fio do irmão do cunhado do vizinho do tiu do Edsão Celular, aquele artista da Televisão.

Josefa: I desde quano o primo do fio do irmão do cunhado do vizinho do tiu do Edsão Celular vai dá arguma posição pra tua fia? Só se for posição de sintido…

Jacutinga: (irritada) Eu num quero nem sabe quem mato minha cabrita. A minha Janerinda só casa co Carmelindo si ela quise. I despois oceis fique sabeno que num farta quem quera casá cum ela. Tem inté um tar de Bir Crinto, que diz que é presidente dum tar de Zestado Zunido, que fabrica dólar i que ta loco de queredera de casá co’a Janerinda.

Josefa: Intão oceis chame a Janerinda i vamo arresorve esse pobrema duma veiz. O meu doce Carmelindo num pode fica disiludido como ta.

Jacutinga: (chamando) Janerinda! Ô, Janerinda! Janerinda! Já-ne-rin-da!
Janeirinda: (chegando toda amorosa, abraçada com Carmelindo) Ocê me chamou, mãe? Eu tava andando pur aí e achei o Carmelindo. A gente tinha si disintindido, mais agora nóis fizemo as paiz i dicidimo que vamo casá.
Josefa: (alegre) Intão ta tudo ressorvido. A Janerinda casa do Carmelindo e ta tudo bão.

Carmelindo: Eu casa co’a Carmelinda? Não mãe. Eu vô casa cum a Xuxa!

Janeirinda: I eu vô casa co Jossoar, aquele gordo lindão!

Dobrandino: Qui história é essa? Oceis num pode i casando assim cum quarqué um. O quê quessa Xuxa tem que a mia fia num tem?

Carmelindo: (Todo eufórico) Ela tem um monte de paquita…

Antonio: Ara, Carmelindo. Quê que oce vai faze cum tudo aquele paquitar? Oce num tem nem um xiquero pra bota tuda essas paquita. I despois elas cresce i vão come demais mio. I ainda tem mais: Num dá pra vende as carne de paca que o Imbama prende a gente. I cria uns bicho desse só pra bunito num dianta nada.
Josefa: I ocê, Carmelinda, mi ixprique pru quê ocê qué casa co Jossoar? O ce acha que ele vai pode te sustenta? O ce num vê que o meu Carmelindo tem muito mais futuro? Ele já sabe cuzinha ovo i ta terminando um curso de faze gelo pelo correio. O tar do Jossoar só sabe prosiá inté de madrugada. Isso num enche barriga de ninguém.

Janerinda: Si num enche barriga, cuma que ele é tão gordo?

Jacutinga: O minha fia, ocê num vê que aquilo é só as tar das maquilage. Eles enche ele cum uns trabessero de pena i bota argodão na boca dele pra parece mais gordo i as pessoa num vê que ele ta morreno de fome.

Carmelindo: Mais, si nóis num pode casa cá Xuxa i co Josoar, cum quem que nóis vai casa?

Dobrandino: Oceis vai casa um co outro, o seja: oce vai casa ca minha Janerinda i a minha Janerinda vai casa co’cê.

Antonio: É bem dianssim que vai acuntecê. Eu inté já to indo providenciá que o seu dotor juiz Executando Legislativo Judiciário venha amarra oceis como a lei manda. (sai buscar o juiz)

Josefa: Inquanto isso, eu ia a Jacutinga vamo trata de arruma os úrtimo detaie do casório.

Jacutinga: A permera previdência é arruma uns padrinho pros noivo. O, Dobrandino, ocê vai i cunvida os nossos vizinho pra sê padrinho. I diz preles traze uns presente bem bão pros nossos fio. (Dobrandino vai buscar os padrinhos)

Josefa: (dirigindo-se a Janeirinda e Carmelindo) Oceis dois venhum aqui pra mor de eu dá uns trato noceis. Ceis tem que ta muito do bunhito quando o seu doto juiz chega pra casa oceis. (Os dois se aproximam e ela começa a arruma-los, de forma bem espalhafatosa)

Antonio: (chegando com o juiz – o juiz está bem vestido, traz um grande livro debaixo do braço e está acompanhado de seu ajudante, este também bem arrumado). Oi nóis aqui. Já truxe (truche) o seu doto juiz i podemo começa ca casação dos nosso fio.
Jacutinga: Tem que espera o Dobrandino chega cós padrinho. Óia lá eles tão chegano (Aproxima-se Dobrandino e dois casais que serão as testemunhas, cada casal trazendo uma caixa embrulhada em papel de jornal)

Dobrandino: (explicando) Num incontrei ninguém mior, intão truxe esses mermo. Ah, muié, os presente que eles truxeram tamem num são lá grande coisa. Um troxe um pinico i o outro uma dúzia de ovo. Diz que era só o que eles tinhum in casa. O pinico até ta cherando mar, i os ovo eu num sei não…
Jacutinga: Mais ocê é imprestaver mermo. Nem pra arruma uns padrinho bão ocê serve.

Josefa: (acalmando os ânimos) Vamo dexá de prosa a toa i vamo trata de casa os nossos fio. Vamo, seu doto juiz. Ocê pode começa co casório.
Juiz: (pigarreia e diz todo empertigado) Minhas senhoras…
Antonio: (interrompendo) Pode Pará. Tuas sinhora num sinhor. Ocê pode sê o doto juiz, mais a Josefa é minha sinhora, i a Carmelina vai sê sinhora do meu fio. Só se o Dobrandino num sincomodá da Jacutinga se tua senhora.
Dobrandino: (bravo) Ocê ta me achano cum cara de quê. Craro que eu mincomodo i muito. Se ele num teve competência pra arranja uma sinhora até agora, num vai sê com a minha quele vai ficá. Ah, num vai não!
Juiz: (explicando) Não é nada disso. Eu estou apenas introduzindo a cerimônia civil de união matrimonial destes jovens nubentes. Não foi para esta finalidade que o senhor foi buscar-me?
Antonio: Num sei doque que ocê ta falando. Eu fui busca ocê pra mor de casa o Carmelindo mais a Janerinda.
Juiz: Mas é exatamente isso que eu disse. Podemos seguir com a cerimônia?
Pais: Craro que pode.
Ajudante: (interrompendo) Interrompemos esta cerimônia de casamento para divulgação de propaganda política partidária, conforme Lei número sete mil, quinhentos e trinta e oito, artigo quarto, parágrafo sétimo, linha nona, do Supremo Tribunal Eleitoral. (levanta uma placa com a foto de um candidato) Nas próximas eleições vote em Coitadinho dos Passos para prefeito. Coitadinho foi candidato derrotado nas eleições de 1972, 74, 76, 78, 80, 82, 84, 86, 88, 90, 92, 94, 96 e 98. Coitadinho diz que esta é a última chance que dá ao povo de elege-lo prefeito. Ele promete abrir os buracos fechados e fechar os buracos abertos em todas as ruas. Promete também aumentar os salários de todos mas lembra que, para isso, terá que aumentar os impostos. E para vereador, vote nos candidatos do PUM – Partido Umanista Municipal. Termina aqui o horário eleitoral gratuito. Segue agora a nossa programação normal.

Jacutinga: (desconsolada) Isso também já ta virando inrolação.

Antonio: Pois ocê fique sabendo que eu vo vota no Coitadinho. As promessa dele são muito boa.

Juiz: Senhores, vamos à cerimônia de casamento. Por favor, quem é o noivo.

Carmelindo: É ieu!

Juiz: E como é o seu nome, meu rapaz?

Janeirinda: Ô, seu doto juiz. Que negócio é esse de chama o Carmelindo de seu rapaiz? Ocê num sabe que ele é meu rapaiz?

Juiz: Deixe para lá. Como é o seu nome, noivo?

Carmelindo: Meu nome é Carmelindo Bode.

Juiz: (anotando no livro) E como é o nome dos seus pais?

Carmelindo: Eu só tenho um pai i uma mãe.

Juiz: Está certo, como é o nome deles?

Carmelindo: O pai se chama Antonho Carnero i a mãe é a Josefa Oveia. É pur isso queu sô Bode, afinar, quê que ia nasce dum carnero e duma oveia?

Juiz: Muito bem. E quem é a noiva?

Janeirinda: É craro qui sô eu, né? O ocê acha que o Carmelindo ia casa cum outra?

Juiz: E como é o seu nome?

Janeirinda: Janeirinda Ondulada. I eu sô fia do Dobrandino Liso i da Jacutinga Crespa.

Juiz: Muito bem, já tenho os dados que preciso para realizar o matrimônio de Carmelindo Carneiro e Janeirinda Ondulada.

Jacutinga: (intervindo) Ao invéis de matrimonho, num dá pra casa eles duma veiz?

Juiz: (explica) É exatamente isso que vamos fazer. Matrimônio e casamento são a mesma coisa. (pigarreia) Estamos aqui reunidos para unir em casamento estes seus filhos, Janeirinda e Carmelindo. Lembro que o casamento é para toda a vida, ou seja, até que a morte os separe. Vocês concordam com isso, meus queridos noivos?

Carmelindo: I essa morte é só por morte morrida o pode ser por morte matada também?

Juiz: Claro que é só por morte natural ou acidental.

Janeirinda: Morte acidentar é quando eu to picando lenha i, sem quere, acerto co machado na cabeça do Carmelindo que ta drumindo lá no quarto?

Juiz: Não é nada disso. Morte acidental é quando alguém morre num acidente de carro, por exemplo. Mas vamos voltar à cerimônia. Carmelindo Bobe, você aceita a senhoria Janeirinda Ondulada, aqui presente, como sua legítima esposa, até que a morte os separe?

Carmelindo: Eu quiria mermo é casa cum a Xuxa, mais o pai num dexô. Intão, pode ser a Janerinda mermo. Afinar, nóis inté já andemo de roda gigante.

Juiz: Senhorita Ondulada, você aceita o jovem Carmelindo Bode, aqui presente, como seu legítimo esposo, até que a morte os separe?

Janerinda: Já queu não posso casa co Jossoar, intão aceito, né. Mais tem que sê até que a morte nos separe? Num dá pra ser até o ano treis mir, por exempro?

Juiz: Tudo bem, pode ser até o ano três mil. Até lá a morte já veio, com certeza. Já que os dois aceitam, de livre e expontânea vontade, casar um com o outro, pergunto: Há entre os presentes alguém que tenha alguma coisa contra este casamento?

Carmelindo: Eu tenho seu doto juiz. É que a Janerinda tem que casa cumigo i não cum esse outro que ocê falo aí.

Juiz: Mas o outro é você. Se não há ninguém que tenha algo contra este matrimônio, então eu os declaro marido e mulher.

Antonio: (abraçando Dobrandino) Agora nóis semo tudo uma famia só. Vamo festeja essa unhão dos nossos fio cum uma baita festança.

Jacutinga: (abraçando Josefa) Que bão que nossos fio juntaro as troxa. Agora nóis semo que nem irmã. Vamo faze uma sopa pra comemora o casório.
(todos vão saindo abraçados e alegres).

(Rev. Éder Carlos Wehrholdt – Campo Largo – Julho de 2000. Alguns nomes de lugares, como Parque Barigüi, são referência a Curitiba. Adaptar conforme o local.)

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