Quaresma – A Via Dolorosa

Introdução
Estamos novamente na época quaresmal. Com profunda reverência voltamos nossos olhos para a Via Sacra, a paixão de nosso Senhor Jesus Cristo.
Suplicamos a Deus Espírito Santo que nos guie ao meditarmos sobre a paixão de Jesus Cristo. Queremos compreender cada vez melhor a causa e as bênçãos deste sofrimento. Queremos crescer na consolação e esperança da vida eterna, bem como na habilidade de testemunhar do Salvador Jesus.
Desde o segundo século, o povo de Deus reservou para si o período quaresmal, estes quarenta dias antes da páscoa, para meditação e cultos especiais. Durante este período, procuravam evitar tudo o que pudesse estorvar esta devoção. Eles não faziam festas e nos lares não se ouvia música estridente. O tempo do descanso e de lazer era aproveitado para meditação e oração. Assim, após o trabalho no fim do dia, as pessoas se dirigiam diariamente às suas igrejas para as meditações quaresmais. Alguns preferiam fazer sua devoção em casa. Nos anos 50 isso ainda se fazia sentir de forma palpável em Porto Alegre. As programações radiofônicas refletiam o tempo da paixão. Também não se realizavam competições esportivas. Hoje vivemos em tempos diferentes. Mesmo assim, cada cristão, cada família cristã e cada congregação deveria lutar por encontrar tempo para a meditação e os cultos quaresmais.
Compreendemos ainda o que aconteceu no Gólgota e o que isto significa para o nosso dia-a-dia, para nossa vida aqui e na eternidade? Mesmo com tantos filmes e vídeos sobre a paixão de Cristo, importa ler e reler os relatos bíblicos.
Oração: “Quero, ó Cristo, meditar no teu sofrimento; do teu trono vem guiar o meu pensamento. Possa eu ver, ó meu Jesus, quão atroz tormento exigiu na infame cruz nosso salvamento.” Amém. (Hinário Luterano (HL) 85.1)

I – GETSÊMANI
Mateus 26.1-56
Marcos 14.1-50
Lucas 22.1-53
Jo 11.45-18.11

Jesus trabalhou três anos em Israel. Ele mostrou ser o Filho de Deus, profetizado no Antigo Testamento, que veio cumprir tudo o que estava escrito a seu respeito (Lc 18.31). Ele veio não para julgar, mas para salvar a humanidade. Ele ensinou sobre o reino de Deus e chamou as pessoas ao arrependimento e à fé (Mt 4.17). Ele proclamou: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6). Na medida em que se aproximava sua hora crucial, ele falou com mais clareza a respeito de sua paixão, morte e ressurreição. Lemos em Mateus: “Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto, e ressuscitado no terceiro dia” (Mt 16.21). Pedro ficou chocado com esta declaração, tomou Jesus de lado e lhe disse: “Tem compaixão de ti, Senhor!” Jesus lhe respondeu: “Arreda! Satanás; tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e, sim, das dos homens.” (Mt 16.22-23). Nossa razão não compreende o sofrimento de Cristo. O Cristo crucificado é “escândalo para os judeus e loucura para os gentios” (1 Co 1.23). Em outras palavras, nossa razão não aceita a solução que Deus encontrou para a nossa miséria, a nossa pecaminosidade. O amor de Deus é escândalo para a nossa razão corrompida pelo pecado. Por isso, quando alguém chega a fé na graça de Cristo e é conservado nesta fé, isto é, ainda hoje, o maior milagre que acontece debaixo do céu. “Pois ninguém pode dizer (isto é, confessar com fé) Senhor Jesus (reconhecer Jesus como Salvador e vencedor do pecado, da morte e do poder de Satanás), senão pelo (poder do) Espírito Santo” (1 Co 12.3). Por isso Jesus disse a Pedro, quando este confessou: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo,” “Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16.16,17). Sim, “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber: aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1.12,13).

A humilhação de Cristo
Jesus é o eterno Filho de Deus, gerado do Pai desde a eternidade. Na plenitude do tempo (Gl 4.4), Jesus veio ao mundo e assumiu da virgem Maria nossa natureza humana, mas sem pecado. Isso é o mistério de sua encarnação. O Filho de Deus humilhou-se profundamente. “Ele, subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz” (Fp 2.6-8). O que significam essas palavras em sua profundidade, vemos na história de sua paixão.
Ao entrar no jardim do Getsêmani, Jesus disse a seus discípulos: “A minha alma está profundamente triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo” (Mt 26.38). Por que Jesus estava tão triste? Porque os pecados de toda a humanidade foram colocados sobre sua alma santa. E ele os tomou sobre si, como se fossem seus. O profeta afirma: “Certamente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões, e moído pelas nossas iniqüidades” (Is 53.4,5). Então Jesus foi orar. Ele orou três vezes. O seu suor tornou-se em gotas de sangue. Ele suplicou: “Meu Pai: Se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e, sim, como tu queres.” (Mt 26.39). Que oração! Não haveria mesmo outro caminho para salvar a humanidade do que pelo amargo sofrer e morrer de Jesus? Não, não havia. O amor não anula a justiça. A lei precisou ser cumprida e a culpa precisou ser paga, para que Deus pudesse perdoar. Então vieram os fariseus e os soldados, guiados por Judas para o prenderem. Por amor a toda a humanidade, por amor a ti e a mim, Jesus se entregou voluntariamente a eles.
Em profunda adoração dizemos com o poeta sacro: “Oh! ide ao Getsêmani, quando assalta a tentação; com o Redentor ali vigiai em oração; no sofrer e no penar, aprendei de Cristo a orar” (HL 76.1).
Oração: “Se o pecado me acusar que mereço o inferno, vem minha alma sossegar, Mediador eterno. Oh! que eu possa sempre crer que por mim sofreste! E jamais vá me esquecer que por mim morreste” (HL 85.5).”

II – JESUS DIANTE DO TRIBUNAL ECLESIÁSTICO.
Mateus 26.57-75
Marcos 14.53-72
Lucas 22.55-71
João 18.15-27.

No culto do Antigo Testamento Deus instituiu, para o povo de Israel, o cargo de sumo sacerdote. O sumo sacerdote deveria ser o intermediário entre Deus e o povo. Era figura e sombra de Jesus, o único mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2.5). O sumo sacerdote deveria zelar pelo ensino e o cumprimento da lei, sacrificar pelos pecados do povo e interceder por ele (Êx 28).
No tempo de Jesus, esse cargo estava sendo ocupado por Caifás, homem culto, mas incrédulo. Caifás deveria ter sido o primeiro a receber a Jesus. Mas ele e os sacerdotes procuraram matá-lo (Mt 26.3; Jo 12.10). Mesmo assim, Jesus respeitou o cargo. Caifás mandou prender a Jesus e convocou o Sinédrio para formularem a sentença condenatória de Jesus. O sinédrio era o mais alto tribunal eclesiástico em Jerusalém, composto por 70 homens dos mais fiéis à religião e honrados em Jerusalém. Não tendo provas para condenarem a Jesus, pagaram falsas testemunhas. Mas estas caíram em contradições diante do Sinédrio. Desesperado, Caifás dirige a Jesus a tão temida pergunta: “Eu te conjuro pelo Deus vivo que nos digas se tu és o Cristo, o Filho de Deu.” Jesus respondeu: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que desde agora vereis o Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso, e vindo sobre as nuvens do céu. Então o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes a blasfêmia! Que vos parece? Responderam eles: É réu de morte! Então uns cuspiram-lhe no rosto e lhe davam murros, e outros o esbofeteavam, dizendo: Profetiza-nos, ó Cristo, quem é que te bateu!” (Mt 26.63-68). Que igreja? “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1.11). Que quadro chocante. Mas somos melhores? Muitas vezes nossa razão traz à tona as mesmas reações.
O mais alto tribunal eclesiástico condenou Jesus à morte, porque ele disse ser o Filho de Deus. Quão profunda foi a queda do homem, a ponto de a criatura condenar o seu próprio Criador e Salvador. Mesmo em coisas espirituais somos totalmente cegos. Esse é o estado de todos as pessoas até hoje. Em Adão e Eva queríamos ser iguais a Deus. Nos rebelamos contra Deus. Esta revolta está ainda hoje em nossos corações. Constantemente brotam dúvidas, questionamentos e incredulidade em nosso coração. A palavra de Deus, pela qual Jesus ainda hoje vem a nós e se revela, fala e chama, é rejeitada, questionada e distorcida. Não deveríamos, pelo menos como povo de Deus, reverenciá-lo e confessar o seu nome ousadamente? Não deveriam todos os cristãos, no domingo, esquecer tudo e reunir-se como uma só família para adorar a Jesus? E neste período quaresmal ler e meditar sobre a paixão de Cristo? Mas ai de nós! Nossos jovens conhecem as canções do mundo melhor do que os salmos e hinos de verdadeiro louvor a Deus e a vida de alguns artistas e esportistas melhor do que a história da paixão de Cristo. Que tristeza!
O tribunal eclesiástico, como representante de Deus na terra, condenou Jesus como blasfemador. Jesus aceitou a condenação. Nisto carregou a nossa culpa. Carregou todos os nossos pecados cometidos contra a primeira tábua da lei de Deus, os primeiros três mandamentos. Não tememos, amamos e confiamos em Deus como deveríamos. Por seu sofrer, Jesus pagou a nossa culpa. Ele “nos amou quando nós ainda éramos seus inimigos” (Rm 5.10). Agora ele nos chama ao arrependimento e à fé e nos oferece sua graça, por sua palavra e seus sacramentos. E todos os que, arrependidos de seus pecados, confiam em sua graça, têm o que as palavras oferecem, dão e selam: perdão dos pecados, paz com Deus e vida eterna. Aos que nele crêem, “deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). Sua graça nos tira da escravidão e do poder de Satanás e nos faz renascer, transforma-nos em filhos de Deus e herdeiros da vida eterna.
Oração: “Deus na cruz é meu amado. Tu, consciência, vais calar. Pela Lei atormentado, ouço Deus me consolar; com seu sangue redentor resgatou-me o Fiador. Deus na cruz é meu amado, pois na fé sou confirmado” (HL 82.4).

III – JESUS DIANTE DO TRIBUNAL CIVIL.
Mt 27.1-26
Mc 15.1-15
Lc 23.1-25
João 18.28-40.

A noite de quinta-feira santa foi terrível. Após a condenação, a assembléia dos homens mais nobres de Jerusalém gritaram: É réu de morte! É réu de morte! Tomaram-no, cuspiram nele e bateram nele. De repente, deram-se conta de que eles não tinham o direito de matar a ninguém, porque eram dominados pelos romanos. Apressaram-se e correram ao tribunal de Pôncio Pilatos. Foram cedo. Queriam evitar tumulto, pois temiam o povo. Mas Deus pensou diferente. Pilatos perguntou a eles: “Que acusação trazeis contra este homem?” (Jo 18.29). A lei romana primava por justiça (At 25.16). Na pressa, os fariseus haviam esquecido de formular a acusação. Pois a acusação de blasfêmia não tinha valor diante do tribunal romano. Eles respondem: “Se este não fosse malfeitor, não to entregaríamos. Replicou-lhes, pois, Pilatos: Tomai-o vós e julgai-o segundo a vossa lei”. (Jo 18.30). Refazendo-se do seu susto, começaram a acusá-lo: “Ele alvoroça o povo” (Lc 23.5). Interessante, ao longo da história da humanidade, a mesma acusação (Cf.: 1 Rs 18.17; Jr 38.4; At 21.38). Mas os perturbadores da paz não foram os profetas de Deus, nem Jesus, nem os apóstolos, nem o são os ministros fiéis de hoje; mas o perverso coração humano, que é inimigo de Deus e que teme a luz da palavra de Deus (Jo 3.19; Rm 8.6).
Nossa queda em pecado foi tão profunda, que não entendemos a vontade de Deus. Julgamos que a lei de Deus é a causa da perturbação da paz. Recentemente ouvi um psicólogo dizer: “Temos que nos libertar das amarras do cristianismo, das leis, que só sabem dizer: Não, não, não! e são a causa de tantos problemas.” Jesus é julgado como perturbador da paz. Aquele que roubou a paz aos homens. Aqui Jesus toma sobre si todos os pecados da humanidade contra a segunda Tábua da lei de Deus, do 4° ao 10° mandamento. Os nossos pecados contra o próximo perturbam a paz. Esses pecados têm crescido em intensidade nos últimos tempos. O apóstolo Paulo escreveu: “Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados, implacáveis, caluniadores, sem domínio de si, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, enfatuados, antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder” (2 Tm 3.1-5).
O tribunal eclesiástico e o tribunal civil condenaram Jesus à morte. O apóstolo Paulo diz: “Cristo me resgatou da maldição da lei (Gn 2.17; Ez 18.20), fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar, porque está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13). A lei de Deus precisou ser cumprida e a culpa paga, pois Deus é santo e justo. Jesus cumpriu a lei em nosso lugar e pagou a nossa culpa por seu sacrifício. Kyrie eleison! (Senhor, misericórdia).
Eis o homem… o Filho de Deus… o rei Jesus
Humilhado, coroado com uma coroa de espinhos, o corpo dilacerado pelos açoites, Pilatos apresentou Jesus ao povo e disse: “Eis o homem!” E a multidão gritou: “Crucifica-o! Crucifica-o! … Ele deve morrer, porque a si mesmo se fez Filho de Deus … Disse-lhes Pilatos: Hei de crucificar o vosso rei? Responderam os principais sacerdotes: Não temos rei, senão César!” (Jo 19.6,7,15). Pilatos estava visivelmente perturbado. Há algo de diferente neste homem. Algo incomum. Não fez nada de mal. Ninguém pôde acusá-lo de um erro sequer. Ele se diz Filho de Deus. E tudo indica que ele o seja. A conversa sobre verdade e sobre o reino de Deus impressionou a Pilatos profundamente. Mas sua razão não consegue harmonizar essas verdades. Seu reino! Sim, seu reino não é um domínio de força, não é luta por justiça social, não é luta por uma ética melhor, nem ecologia ou felicidade material, é paz no coração, paz com Deus, “uma paz que o mundo não pode dar” (Jo 14.27). É o reino da verdade (Ef 1.13; Jo 8.32). Pilatos procurou soltá-lo, mas temia por sua reputação junto ao povo, temia pelo seu trono. Finalmente entrega o Autor da Vida à morte. Tenta desculpar-se e lançar a culpa em outros, lavando suas mãos em água. Em vão! Não conseguiu paz de consciência. Ele estava diante do Salvador Jesus, do rei da paz, do autor da vida e o rejeitou. Alguns anos mais tarde perdeu o seu tão amado trono e morreu miseravelmente. Seu nome consta no Credo Apostólico para advertência a muitos que, como Pilatos, estiveram frente a frente com Jesus, no batismo, na confirmação, nos cultos, na santa ceia, mas terminaram amando mais as trevas do que a luz (Jo 3.19), vindo a perecer.
Contemplando as cenas dos dois julgamentos e observando as reações e o comportamento das pessoas envolvidas nesse episódio, bem como toda a crueldade contra Jesus, só nos cabe bater no peito e exclamar: Senhor tem compaixão de nós. Porque não há pecado na história da paixão de Cristo que de uma ou de outra forma não esteja também em nosso coração. Tudo isso Jesus tomou sobre si e sofreu em profunda humilhação, por ti e por mim. Ele disse: “Tu me deste trabalho com os teus pecados” (Is 43.24). E agora ele nos convida a recebermos dele o perdão, porque “o seu sangue nos purifica de todos os pecados” (1 Jo 1.7).
Oremos humildemente: “Eu, eu e meu pecado havemos motivado a tua grande dor, os murros violentos, mil outros sofrimentos, que te enchem a alma de pavor” (HL 94.4). “Oh! Não seja em vão, Senhor, teu martírio expiador!” (HL 81).

IV – A VIA  DOLOROSA
Mateus 27.27-32
Marcos 15.16-21
Lucas 23.26-31
João 19.1-17.

Tendo sido entregue aos soldados, estes tomaram a Jesus e fizeram os preparativos. Eles impuseram-lhe a pesada cruz de madeira e o conduziram, com outros dois apenados, pelas estreitas ruas de Jerusalém, rumo ao Gólgota, chamado lugar da caveira. Isto era por volta das nove horas da manhã. Numerosa multidão seguiu a Jesus. A mesma multidão que no início da semana recebeu a Jesus cantando Hosana (Senhor, ajuda), agora grita: Crucifica-o! Assim é o coração humano. O profeta Jeremias escreveu: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas e desesperadamente corrupto, quem o conhecerá?” (Jr 17.9). E Jesus afirmou: “Do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias” (Mt 15.19). Por isso exclamamos com o apóstolo Paulo: “Desventurado homem que sou! quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor” (Rm 7.24).

Chorai por vós…
Entre a multidão que acompanhava o cortejo encontravam-se algumas mulheres. Comovidas, choravam diante de tão grande injustiça e sofrimento. Em determinada altura, Jesus dirigiu-se às mulheres e lhes disse: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e por vossos filhos. Porque dias virão em que se dirá: Bem-aventuradas as estéreis, que não geraram nem amamentaram. Nesses dias dirão aos montes: Caí sobre nós, e aos outeiros: Cobri-nos. Porque, se em lenho verde fazem isto, que será no lenho seco?” (Lc 23.27-32). Com estas palavras, Jesus estava dizendo: Não sofro isto por causa de meus e sim de vossos pecados. Por isso reconhecei e chorai sobre vossos pecados em verdadeiro arrependimento, segundo a tristeza que o Espírito Santo opera (2 Co 7.10). Pois em breve virá o juízo de Deus sobre Jerusalém. Serão dias terríveis, como será terrível o dia do juízo final, para todos os que não se arrependeram e creram em Cristo. Pois se Deus castiga tão cruelmente seu próprio, unigênito e amado Filho, o lenho verde, que carrega culpa alheia, o que será do lenho seco, de nós pecadores, se cairmos nas mãos do Deus vivo e não tivermos “advogado junto ao Pai, Jesus Cristo o justo” (Hb 10.31; 1 Jo 2.1)? Queira Deus abrir nossos olhos em tempo (Ap 3.18).
Defrontamo-nos hoje com um quadro distorcido de Deus. Fala-se muito do amor de Deus desvinculado da justiça de Deus. Como se Deus, por ser amor, não castigasse ninguém. Dizem que a doutrina do inferno é invenção da igreja para amedrontar. Mas que Deus é uma energia positiva, que não pune ninguém. Por isso muitos não entendem mais a história da paixão de Cristo. Precisamos buscar o conhecimento de Deus conforme o encontramos na Bíblia. Ali Deus se revela como um Deus santo e justo, que deu a sua lei, que exige cumprimento da lei e ameaça e castiga a todo o transgressor, e diz: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). E quanto à sua lei afirma: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.4). O amor não anula a justiça de Deus, por isso Jesus veio e pagou a culpa da humanidade por sua amarga paixão e morte. O apóstolo Paulo afirma: “Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos deixeis reconciliar com Deus” (2 Co 5.19,20). E aos que têm uma visão distorcida de Deus e acham que serão aceitos por Deus por sua própria justiça, Jesus admoesta pelo apóstolo João: “Dizes: Estou rico e abastado, e não preciso de cousa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os teus olhos, a fim de que vejas. Eu repreendo e disciplino a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te. Eis que estou a porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele comigo” (Ap 3.17-20).
Oração: “Faze-mo reconhecer muito arrependido. Já não quero te ofender, pois me tens remido. Como poderia amar este meu pecado que te fez por mim penar sobre a cruz pregado?” (HL 85.4).

V – O CALVÁRIO
Mateus 27.33-53
Marcos 15.22-38;
Lucas 23.32-46
João 19.18-30

Chegando ao Gólgota, os três condenados foram pregados na cruz e erguidos. Não vale a pena dar ouvidos às muitas especulações humanas sobre a crucificação. Os textos bíblicos são claros. A crucificação era algo horrível. Os crucificados ficavam, por vezes, horas berrando de dor. Amaldiçoavam a Deus, a si próprios e a seus algozes. Jesus, o Filho de Deus, sofreu calado. E, ao abrir de repente sua boca, eis que dela brotou uma oração: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23.34).” Isto é, não castigues a meus inimigos agora. Concede-lhes, graciosamente, mais um tempo para arrependimento. Estão cegos pelo ódio. Não sabem o que fazem. Talvez, mais tarde, reconheçam seus erros, se arrependam e vivam.
Ainda hoje essa oração nos beneficia. O que seria de nós, se Deus nos castigasse de imediato toda vez em que nos surpreende em pecados. “Ó Senhor, tem compaixão de nós.”

Densas trevas…
Ao meio dia, densa escuridão envolveu toda a terra. A natureza encobriu seu rosto diante do profundo sofrimento de seu Criador. No fim das três horas de trevas, Jesus exclamou: “Deus meu, Deus meu, porque me desamparaste (Mt 27.46)?” Um brado terrível das profundezas do inferno! Mesmo assim, não é uma exclamação de desespero, nem de queixa, antes uma confissão daquilo que estava lhe acontecendo. Esta frase é profundo consolo para todos nós. “Por que me desamparaste?” Quantas vezes exclamações idênticas subiram aos céus e ecoam ainda hoje neste mundo. A causa de tudo isto é uma só: O pecado. Os homens abandonaram a Deus e não Deus aos homens. Deus diz pelo profeta: “A mão de nosso Deus … e a sua ira é contra todos os que o abandonam” (Ed 8.22; Is 59.2). E para nos abrir o caminho de volta para o Pai e remover o pecado, Jesus, o Filho de Deus, como substituto de toda a humanidade, sofreu a ira de Deus e reconciliou o mundo com Deus (2 Co 5.19,20; Jo 3.16). Aqui ele sofre o que palavras humanas não podem expressar. Ele sofre em sua alma santa os horrores do inferno. Tão cruel é o pecado. Tão santa a justiça de Deus. Tão imenso o amor de Deus em seu Filho Jesus. Lutero, ao meditar sobre estas palavras, exclamou: “Deus por Deus desamparado, quem o compreenderá?” Sim, “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). O significado do verbo “deu”, aqui é: Deus o entregou por nós aos sofrimentos do inferno.
Jesus sofreu voluntariamente para que ninguém mais fosse abandonado por Deus (Ez 18.32; Jo 3.16-19), exceto aqueles que rejeitam o amor de Cristo. Porque “o que não crê, já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.18). Os cristãos, mesmo enfrentando situações de dor, exclamam por vezes: Meu Deus, por quê? Mas são confortados pelo Espírito Santo e se consolam com a graça de Cristo. Dizemos com o apóstolo Paulo: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? … Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou” (Rm 8.35-37). Sabemos que Deus Pai está ao nosso lado com todo o consolo e poder.

Está consumado…
Finalmente soou na cruz o brado de vitória. Vendo Jesus que tudo já estava consumado, exclamou em alta voz: “Está consumado!” O grande plano da salvação da humanidade, planejado na eternidade (Ef 1), anunciado a Adão e Eva logo após a queda destes em pecado, proclamado por boca de muitos profetas (Hb 1.1,2) e executado pelo próprio Filho de Deus estava consumado. Jesus bebeu o amargo cálice até à última gota. A lei foi cumprida. A culpa da humanidade foi paga. Os inimigos: pecado, morte e Satanás vencidos. Esta salvação só poderia ser executada pelo unigênito Filho de Deus e por mais ninguém. Pois, o salmista afirma: “Ao irmão, verdadeiramente, ninguém o pode remir, nem pagar por ele a Deus o seu resgate (pois a redenção da alma deles é caríssima, e cessará a tentativa para sempre)” (Sl 49.7,8).
Em profunda adoração, inclinamos nossa cabeça, com o centurião ao pé da cruz, para confessar: “Verdadeiramente este é o Filho de Deus.”
Oração: “Devo agradecer-te tanto, ó Jesus, tamanha dor: chagas, agonia, pranto, penas e mortal horror. Vivo e morro consolado, por teu sangue perdoado. Grato sou por tanto amor, meu bendito Redentor” (HL 93.5).

VI – O FRUTO DO PENOSO TRABALHO
Mt 27.54-61
Mc 15.39-47
Lc 23.47-50
Jo 19.31-42
Is 53; At 2

Pelas três horas da tarde, “Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” E, dito isto, expirou.” (Lc 23.46). Tendo Jesus falecido, houve um forte terremoto. O véu do santuário no templo “rasgou-se pelo meio” (Lc 23.45). Agora, o caminho para o Pai estava aberto. “Abriram-se os sepulcros e muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram; e, saindo dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus, entraram na cidade santa e apareceram a muitos. O centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto e tudo o que se passava, ficaram possuídos de grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era o Filho de Deus” (Mt 27.52-54). “E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos (Lc 23.48).” O profeta Isaías escreveu: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma, e ficará satisfeito” (Is 53.11). Na explicação do Segundo Artigo do Credo Apostólico, confessamos: “Pois me remiu a mim, homem perdido e condenado, me resgatou e salvou de todos os pecados, da morte e do poder do diabo; não com ouro ou prata, mas com seu santo e precioso sangue e sua inocente paixão e morte, para que eu lhe pertença e viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança.” (Cat. Menor, 2° Artigo). Que palavras cheias de vida, consolo e poder. Deus nos oferece este precioso fruto da salvação: perdão dos pecados, vida e eterna salvação em sua palavra e seus sacramentos. Quem se apega a esta graça de Cristo pela fé, não se cansa de ler e meditar nestas palavras de dia e de noite (Sl 1.2), para delas receber consolo, paz, força e esperança.
“Para que eu lhe pertença.” Este é o fruto do seu penoso trabalho, “para que eu lhe pertença.” Quando? Agora! Aquele que confia na graça de Cristo, Deus lhe concede o poder de ser filho de Deus (Jo 1.12,13). O pertencer a Deus é descrito na Bíblia de muitas formas. Confira os seguintes versículos: membros do corpo de Cristo (1 Co 12.13), filhos de Deus (Rm 8.16), herdeiros do céu (Tt 3.7), templos do Espírito (1 Co 6.19), sacerdotes reais (1 Pe 2.9). Ser propriedade de Cristo inclui em primeiro lugar o consolo. A lei não pode mais nos acusar, Cristo a cumpriu por nós. Satanás não tem mais poder sobre nós, Cristo o venceu. A morte eterna não tem mais poder sobre nós e a morte temporal, pela qual ainda teremos que passar – exceto se o juízo final nos colher em vida, então seremos imediatamente transformados, 1 Co 15.51,52) – Jesus a transformou em porta para o céu. Sim, Jesus nos libertou: a) do pecado, isto é, da dívida, do castigo e do domínio do pecado (1 Pe 2.24; Cl 3.13; 1 Pe 1.18,19); b) da morte, isto é, não preciso temer a morte temporal, porque a morte eterna não tem mais poder sobre mim (Hb 2.14,15; 2 Co 1.10; 1 Co 15.55,57); c) do poder de Satanás, isto é, Satanás não pode mais me acusar e eu posso resistir-lhe vitoriosamente (Gn 3.15; l Jo 3.8).
Oração: “As feridas tão cruentas são vertentes que nos dão água viva, com que alentas o sedento coração. Teu amor divino e terno nos conduz ao lar paterno. Oh! Não seja em vão, Senhor, teu martírio expiador!” (HL 81.4).

Viva submisso a ele
“E viva submisso a ele, em seu reino, e o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança.” Somos, pela fé na graça de Cristo, filhos de Deus. Somos novas criaturas e templos do Espírito Santo. Temos uma mente nova, uma nova visão da vida, e novas forças. Temos alegria em servir a Cristo (Sl 119.77). Vivemos “em novidade de vida” (Rm 6.4; 7.6). Isto se expressa pelo apego à Palavra de Deus e aos cultos, pelo orar sem cessar (1 Ts 5.17), bem como na luta diária contra o pecado (Gl 5.16-26). Jesus nos governa. No seu reino impera a graça, o perdão dos pecados. “Para que eu o sirva em eterna justiça, inocência e bem-aventurança.” O sirva sem medo, sem coerção da lei, voluntariamente e com alegria. Não com minha justiça própria, porque esta é imperfeita, mas vestidos com a justiça de Cristo. A graça de Cristo cobre nossas imperfeições “abundante e diariamente”. O seu sangue nos lava continua e completamente de nossos pecados. Assim servimos vestidos com a justiça de Cristo. A tônica da teologia bíblica está no “Cristo por nós”. Este é o consolo e a força, e não o “Cristo em nós”. O Cristo “em nós” é o resultado do Cristo “por nós”. A partir disto, Lutero mostrou que a vida santificada do cristão não é exercida em ações na igreja, mas no exercício dos deveres na vida diária (Tábua dos Deveres). Na igreja e nos departamentos nos reunimos para o estudo da palavra de Deus e para planejarmos juntos o trabalho de levar a palavra de Deus a todas as nações e somar forças para tanto.

A vida sob a cruz…
Esta vida, enquanto aqui na terra, envolve luta diária. A imagem divina foi parcialmente restituída em nós. “E vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24). Temos ainda nossa natureza carnal, que “milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si” (Gl 5.17). Assim somos “simul justus et peccator, totaliter” (Somos simultânea e totalmente justos e pecadores). Este “simultaneamente” precisa ser lembrado e compreendido. Não é assim que na hora do culto sou mais santo e na hora do meu trabalho sou mais pecador. Não! Somos, pela fé na graça de Cristo, e enquanto na fé, diante dos olhos de Deus totalmente santos, porque Deus nos perdoa abundante e diariamente todos os pecados. E ao mesmo tempo, conforme nossa natureza carnal, que não muda, somos totalmente pecadores. Tudo o que fazemos, sim, nossas melhores obras são ainda imperfeitas, manchadas de pecado e precisam ser purificadas e lavadas pelo sangue de Cristo. Assim servimos a Deus jubilando em sua graça e ao mesmo tempo chorando sobre nossas fraquezas, imperfeições e pecados diários. Assim servimos a Deus em “eterna justiça, inocência e bem-aventurança.” Isto é, vestidos com a eterna justiça e inocência de Cristo que nos é atribuída por fé, temos acesso ao Pai e somos agradáveis a ele. Esta eterna justiça e inocência é que purifica todos os nossos atos e nos torna agradáveis a Deus. Esta eterna justiça e inocência é nossa permanente vestimenta. É dela que temos toda a alegria e bem-aventurança, a certeza do perdão e a esperança da vida eterna. Dela nos advém também, diariamente, a força para a luta e o servir a Cristo, bem como toda a saudade de estar com Cristo. Ansiamos por ser transformados e estar com Cristo. Não simplesmente libertos da matéria. Não. A simples libertação da matéria é uma idéia espírita. Nosso corpo material é um dom precioso. E Deus não nos criou para a morte, mas para a vida. Em breve o pecado será totalmente afastado de nosso corpo, pois aguardamos a ressurreição. Então viveremos de corpo e de alma, pela graça de Cristo, com o nosso Senhor e Salvador Jesus, no seu reino, eternamente. Mas enquanto Deus nos deixar aqui, nosso principal propósito de vida é aquele que confessamos ao sairmos da mesa da santa ceia, quando o pastor nos diz: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice: – Anunciais a morte do Senhor até que ele venha.
Oração: “Jesus, Senhor amado, fizemos-te sofrer; tu foste condenado, sem mal algum fazer. Pois tudo suportaste, pensando sempre em mim. Por mim à cruz levaste o meu pecado assim. … Perder não quero agora a minha salvação; arrependida, implora minha alma o teu perdão. Pecado, inferno e morte não podem me magoar; em ti, bendita sorte terei no eterno lar” (HL 98.1,4).

(Rev. Horst Kuchenbecker – )Quaresma, 2001

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: