A Igreja Cristã

Que é a Igreja?
A palavra “Igreja” é derivada do grego kyriakon (doma), Igreja, kirk, Kirche, (casa) do Senhor. No Novo Testamento é usada a palavra ecclesia, que significa assembléia chamada ou reunida. – Todos aqueles que o Espírito Santo chamou, pelo Evangelho, das trevas para a sua maravilhosa luz, constituem a raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (1 Pe 2.9) que se chamou Igreja. E crescia mais e mais a multidão dos crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor (At 5.14). Em João 10.14-16, 26-28, Jesus fala dos crentes como seu rebanho, e esse rebanho constitui a Igreja. Em João 11.52 ele nos diz que os filhos dispersos de Deus serão reunidos, e essa reunião é a Igreja. Paulo fala da família da fé (Gl 6.10), e diz que a Igreja é o corpo de Cristo (Ef 1.23), pelo qual Cristo se deu a si mesmo, a fim de santificar e purifica-lo com o lavar da água pela palavra (Ef 5.25-27). Tudo isso mostra que as muitas pessoas individuais que pela fé entraram em estreita e íntima relação com Cristo constituem um só corpo, e esse corpo é a Igreja.
O reino de Deus
Esse termo é usado muitas vezes na Bíblia com referência à Igreja. Todavia, o termo não designa as pessoas que constituem a Igreja, mas indica antes o efetivo exercício da norma real de Deus no coração dessas pessoas. Que reino de Deus não é idêntico a Igreja torna-se claro na segunda petição do Pai Nosso: Venha o teu reino, e em Lc 17.21, onde se afirma que o reino de Deus está dentro de nós. Se o reino de Deus deve vir e está dentro de nós, segue-se que nós mesmos não podemos ser o reino. Mas daqueles que pela fé se tornaram membros da Igreja o Senhor diz: Habitarei e andarei com eles; serei o seu Deus e eles serão o meu povo (2 Co 6.16; Jo 14.23). Habitando no coração dos crentes, Deus não é inativo, mas ativo. Ele os governa, dirige e guia como diz Paulo: Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus (Rm 8.14). Por isso, o reino de Deus dentro dos homens é aquela atividade de Deus no coração dos cristãos pela qual ele governa e dirige por seu Espírito. “E somente esta Igreja se chama corpo de Cristo, corpo ao qual ele renova, santifica e governa por seu Espírito” (Apologia, Art VII, 5 – Livro de Concórdia, Porto Alegre, Concórdia Editora,, 1993, p. 177). Fé em Cristo e o reino de Deus em nós não são coisas idênticas. Deus, na verdade, opera a fé em nossos corações, mas ele não crê por nós. Quem crê é o homem. A fé é o ato espiritual do homem, ato pelo qual ele confia nos méritos de Cristo. O reino de Deus em nós é atividade de Deus pela qual ele governa nos corações dos crentes. Mas essas duas coisas nunca estão separadas. Onde está uma, também deve estar a outra (Gl 3.26: Rm 8.14). Nenhuma das duas, nem as duas juntas são a Igreja, porque a Igreja é constituída de pessoas. A Igreja é a totalidade das pessoas que têm fé no coração e são dirigidas pelo Espírito de Deus.
Incrédulos e hipócritas, ainda que afiliados e ativos numa congregação, não pertence à Igreja, porque os termos usados nas Escrituras para descrever a Igreja indicam que há uma relação íntima e comunhão entre seus membros e Deus. É chamada casa de Deus (1 Tm 3.15); casa espiritual (1 Pe 2.5); santuário dedicado ao Senhor (Ef 2.21); reino pelo qual somos cidadãos e família da qual somos filhos (Ef 2.19); o corpo de Cristo, do qual somos membros (Ef 1.22-23); a raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus (1 Pe 2.9). Esta relação íntima e pessoal com Deus requer fé em Cristo. Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus (Gl 3.26). Todos os crentes verdadeiros, seja qual for a denominação a que pertencem, são membros dessa Igreja, mas nenhum, ainda que seja sacerdote, ministro ou papa, é membro dela se não tem fé. “Razão porque pensamos que a Igreja propriamente dita é a congregação dos santos (dos santos aqui e acolá no mundo), que verdadeiramente crêem no Evangelho de Cristo e têm o Espírito Santo (Livro de Concórdia, pp, 181/28; 338/XII; 453-454/47-53). Na explanação do terceiro artigo do Credo Apostólico em seu Catecismo Menor, Lutero descreve toda a Igreja cristã na terra como sendo aqueles que o Espírito Santo chama, congrega, ilumina, santifica e conserva em Jesus Cristo na verdadeira e única fé. No momento em que alguém crê em Cristo, torna-se com isso, imediatamente, membro da Igreja. E deixa de ser membro da Igreja no momento em que perde a fé. Ser membro da Igreja depende da fé. Bem! Pela sua incredulidade foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme (Rm 11.20). Não temos o direito de exigir, antes de considerarmos alguém membro dessa Igreja, certa medida de conhecimento doutrinário ou certo grau de fé. Mas deve haver sincero pesar à vista do pecado e confiança de perdão nos méritos de Cristo. O ladrão crucificado provavelmente não tinha grande conhecimento doutrinário, mas sabia o que era necessário saber (Lc 23.42, cf. Is 42.3; Jo 6.37).
Pela fé todos os crentes estão muito intimamente unidos a Cristo, seu Salvador, e exatamente por essa razão também estão intimamente unidos uns com os outros pelo vínculo da fé comum, da esperança comum, e pelo amor mútuo, e assim constituem, por afastados que possam estar localmente uns dos outros, um só corpo, uma grande comunhão, que chamamos Igreja (Ef 4.3-6).
A Igreja também é apresentada como toda a família (de Deus), tanto no céu como sobre a terra (Ef 3.15). Esse conceito de Igreja inclui todos os cristãos que morreram na fé e foram para o céu, e todos os cristãos que ainda no mundo. É costume distinguir entre a Igreja militante na terra, e a Igreja triunfante no céu. Essa última é chamada assim porque, havendo sido fiéis até a morte, esses cristãos entraram em seu descanso (Hb 4.9), e receberam a coroa da vida (Ap 2.10; 2 Tm 4.8). A Igreja militante é chamada assim porque na terra os cristãos conduzem uma guerra ou batalha espiritual contra o diabo (Ef 6.10-11), o mundo (1 Jo 5.4), e sua carne (Gl 5.17; 1 Co 9.26-27(. E é através da morte vitoriosa que entram na Igreja triunfante (2 Tm 4.7-8). A presente discussão limita-se à Igreja na terra.
Os atributos da Igreja
(a) A Igreja é invisível. Visto que a fé, pela qual os homens se tornam membros da Igreja, é invisível aos olhos humanos, a própria Igreja é invisível para o homem. Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós (Lc 17.20-21).  Tão pouco como podemos dizer com absoluta certeza: “Este homem tem fé verdadeira e o reino de Deus está no coração”, tão pouco podemos dizer com absoluta certeza: “Estas pessoas constituem a Igreja”. Elias não sabia dos sete mil homens em Israel que não haviam dobrado joelhos diante de Baal (Rm 11.2-4; 1 Rs 19.8-18).  A Igreja é invisível para o homem, mas é definitivamente conhecida a Deus, pois Deus conhece todos os seus membros. O Senhor conhece os que lhe pertencem (2 Tm 2.19). O cristão individual sabe que ele pessoalmente crê (2 Co 13.5; 2 Tm 1.12). Com isso também sabe que pertence à comunhão dos santos, que é a Igreja de Deus.
(b) A Igreja é uma. Já que a Igreja inclui todos os homens do mundo inteiro que verdadeiramente crêem em Cristo, é evidente que pode haver apenas uma Igreja. Por isso Cristo fala em um rebanho e um pastor (Jo 10.16; Jo 11.52). Paulo descreve a unicidade e a unidade da Igreja assim: Esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz: há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só Batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos (Ef 4.3-6). Assim, não pode haver judeu nem grego; nem escravo nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl 3.28). Também os termos que descrevem a Igreja como casa de Deus, santuário do Senhor, família de Deus, um só corpo em Cristo, mostram que a Igreja é uma só.
(c) A Igreja é santa. Pelo poder justificativo da fé todos os crentes têm completo perdão e a perfeita justiça de Cristo. De sorte que são santos diante de Deus. …Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo Igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito (Ef 5.25-27). Por essa razão a Igreja é chamada “comunhão dos santos”.
Por intermédio do poder santificante da fé todos os verdadeiros crentes se esforçam seriamente para viver vidas santificadas, alcançando desse modo verdadeira justiça de vida, ainda que imperfeita.Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo (1 Pe 2.5; Rm 12.1-2). Por causa do velho homem, os membros da Igreja ainda cometem pecados, por vezes pecados grosseiros, que deveras são condenáveis. Mas como os cristãos se arrependem de seus pecados e confiam nos méritos de Cristo, têm perdão de Deus e não serão condenados (Jo 5.24).
(d) A Igreja é católica, universal, porque é reunida de entre todas as nações debaixo do sol. Abraça todos os verdadeiros cristãos que viveram, vivem agora e viverão até o fim dos dias. Todo aquele que verdadeiramente crêem em Cristo, pertence a essa igreja, nada importando quando e onde vive, a que raça ou nacionalidade pertence ou de que denominação eclesiástica é membro. Neste sentido, a palavra “católico” descreve muito bem o caráter universal da Igreja invisível. Essa igreja teve seu princípio com Adão e Eva, que confiaram na semente prometida da mulher. Inclui todos os crentes do Antigo Testamento (At 10.43; Rm 4), e todos crentes até o fim do tempo (Jo 17.20).
Em razão do fato de Roma haver usurpado o termo “católico”, aplicando-o, erroneamente, a sua denominação particular, que de modo nenhum é universal, Lutero lhe substituiu a palavra “cristão” no terceiro artigo do Credo Apostólico. Com isso desejamos distinguir esta associação, ou comunhão de crentes, dos adeptos de outras religiões, tais como a judaica, a islâmica, budista e outros corpos religiosos, e com isso também confessar que Cristo e sua redenção é o fundamento da fé em todos os seus membros (1 Co 3.11; Ef 2.19-22).
(e) A Igreja é imperecível. Corpos eclesiásticos individuais, denominações particulares e congregações locais podem desaparecer, mas a igreja invisível continuará. As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18; Sl 46.5; 48.8; Lc 1.33). Existiu em todos os tempos, mesmo na Idade Média, quando os papas reinavam supremos, e existirá até o fim dos dias uma comunhão de verdadeiros crentes, guardados pelo poder de Deus, de sorte a não se tornarem vítimas de erros fundamentais (Mt 24.24; Jo 10.27-29;Rm 11.2-5). Como o Evangelho e os sacramentos hão de permanecer, assim haverá sempre alguns que chegam a crer em Cristo e desta maneira se tornam membros da igreja.
(f) A Igreja invisível é a única igreja salvadora. Já que a fé na expiação vicária de Cristo é a única coisa que salva (Jo 3.16), e já que a Igreja abrange a todos os que têm essa fé, torna-se evidente que ser membro dessa igreja salva. Todo aquele que rejeita a fé pela qual a gente se torna membro dessa Igreja, não pode encontrar a salvação em qualquer outra religião. Não é verdade que cada qual é salvo à sua maneira, seja qual for a sua fé. Disse Cristo: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6). Todavia, nenhum corpo eclesiástico visível, ou denominação, pode afirmar que é a única igreja salvadora, a exemplo do que faz a Igreja Romana. Afirma Bonifácio VIII na “Unam Sanctam” (1302): “Para salvar-se é absolutamente necessário a toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice”. Em sua alocução de 9 de dezembro de 1854 afirmou Pio IX: “Deve considerar-se de fé que ninguém pode ser salvo fora da Igreja Apostólica Romana”. De acordo com o ensino bíblico, o “não há salvação fora da igreja”, se aplica apenas à Igreja invisível.
A edificação e preservação da igreja é exclusivamente obra de Deus
Assim como é o Espírito Santo quem por intermédio do Evangelho opera e preserva a fé pela qual os homens se tornam e permanecem membros da Igreja, assim é Ele quem congrega toda a cristandade na terra e em Jesus Cristo a conserva na verdadeira e única fé. E o Salvador exaltado, que se assenta à direita de Deus, é o cabeça da Igreja, e, como soberano Senhor de tudo, dirige os acontecimentos do mundo tendo em vista o especial benefício de seu corpo, que é a Igreja (Ef 1.20-23), de modo que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16.18; Sl 46).
Os meios pelos quais a Igreja é edificada e preservada são os mesmos pelos quais os homens chegam a crer e permanecem na fé, a saber, os meios da graça. Aqueles que vieram a crer em mim, por intermédio da sua palavra (Jo 17.20). A Igreja não é edificada e preservada pela lei, nem por medidas e métodos humanos, nem por força política ou organização eclesiástica, mas unicamente pelos meios do Evangelho. Fazemos dos homens discípulos de Cristo ensinando-os a observar o que Cristo ordenou (Mt 28.19-20). O papel do homem na edificação, expansão e preservação da Igreja é meramente instrumental (1 Co 3.5-10), visto que pelos homens o Evangelho do reino é para ser pregado em todo o mundo (Mc 16.15). As pessoas que Deus emprega para esse fim são os membros da Igreja. Os homens são levados à Igreja para serem salvos através da fé em Cristo. Mas tendo sido ganhos, devem e querem esforçar-se no sentido de ganhar outros (Jo 1.40-42). Por conseguinte, a obra missionária é o trabalho principal da Igreja (Is 40.9). em nosso ensino e pregação sempre devemos estar conscientes disso: que nos cabe levar homens à fé em Cristo, edificando e preservando dessa maneira a Igreja invisível. E para alcançar isso não há outro meio senão o Evangelho.
Onde está a Igreja?
(a) Nos é garantido que essa Igreja invisível existe na terra (Mt 16.18). É apenas a fé que torna os homens membros dessa igreja. Essa fé é operada no coração dos homens através dos meios da graça, a saber, o Evangelho e os sacramentos (Rm 10.17; cf. Confissão de Augsburgo, Art V, Livro de Concórdia, p. 30). Onde a Palavra de Deus não é conhecida, quer seja o caso com toda uma nação, quer com uma pessoa individual, não há Igreja. Por conseguinte, podemos esperar encontrar a Igreja lá onde o Evangelho de Cristo está em uso, e apenas lá. “O reino de Cristo só existe com a Palavra e os Sacramentos” (Apologia da Confissão; Art IX, 2, Livro de Concórdia, p. 187). “A Igreja Cristã não consiste apenas na comunhão de sinais externos, mas especialmente na comunhão interna de bênçãos eternas no coração, como do Espírito Santo, da fé, de temor e amor de Deus, comunhão que, todavia, tem marcas externas, assim que pode ser reconhecida, a saber, a doutrina pura do Evangelho e a administração dos sacramentos de acordo com o Evangelho de Cristo (Apologia da Confissão, Art. VII e VIII, 5, Livro de Concórdia, p. 177).
Embora seja verdade que não pode haver fé nem Igreja sem os meios da graça, pelos quais a fé é criada e a igreja edificada, contudo a administração e o uso desses meios não pertencem à essência da Igreja, nem constituem aspecto visível dela. Ilustração: o gerador produz eletricidade; mas quem incluiria o gerador em qualquer tentativa de definir a essência da eletricidade? Ou: quem chamaria o gerador de lado visível da eletricidade? Ambas – a essência da fé e a da Igreja -, são invisíveis para nós. E não há aspecto visível numa coisa invisível. Mas a doutrina pura do Evangelho e a administração dos sacramentos de acordo com o Evangelho de Cristo são “marcas externas” pelas quais podemos saber que a Igreja deve estar aí.
(b) Há cristãos verdadeiros ou membros da Igreja invisível também naquelas denominações que a par do ensino de doutrinas falsas aderem ainda às doutrinas fundamentais do Evangelho. Qualquer texto do Evangelho, se realmente é Evangelho, potencialmente é o Evangelho todo, sendo, por isso, capaz de produzir a fé nos corações daqueles que o recebem. É possível que por ignorância os homens errem em algumas doutrinas, enquanto no coração confiam em Cristo para o perdão dos seus pecados e esperam ser salvos por sua graça. A teologia da cabeça nem sempre concorda com a teologia do coração. Mas onde se desconhecem ou negam as partes essenciais do Evangelho, que, só ele opera a fé salvadora, aí não pode haver membros da igreja cristã. Onde o Evangelho é ensinado em sua verdade e pureza, as marcas da Igreja aprecem mais distintamente.
(c) Lemos em Is 55.11: Assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz, e prosperará naquilo para que a designei. De acordo com esse texto, a Palavra de Deus jamais é ensinada em vão. Isso, todavia, não quer dizer que sejam ganhos para Cristo e a Igreja todos aqueles que ouvem o Evangelho. Da parábola do semeador (Lc 8.11-15) aprendemos que em muitos daqueles que ouvem, a palavra não tem esse feito (cf. At 13.46). Também não quer dizer que em algum lugar ou ponto de missão onde pregamos a palavra ela ganhará pelo menos alguns para Cristo. Em Lc 10.10-11 Cristo diz a seus discípulos que na viagem missionária deles possivelmente entrem numa cidade cujo povo não receba a mensagem do reino de Deus. Assim, a pregação do Evangelho não produzirá em cada caso resultados positivos, ganhando almas para Cristo. Todavia, o Evangelho jamais é pregado em vão. Por ele os homens são levados a crer (Jo 17.20), e onde quer que em virtude da dureza do coração não é alcançado esse propósito primário, o Evangelho é pregado como testemunho contra tais pessoas (Is 6.9-10; Mc 4.11-12; Mt 24.12). Aquele que voluntariamente endurece o coração contra o Evangelho, pode, finalmente, sob o juízo de Deus, ser endurecido pelo Evangelho (2 Co 2.14-16). E o fato de que o Evangelho foi pregado a tal pessoa, há de pesar contra ela no dia do juízo (Mt 12.41-42).
A IGREJA VISÍVEL
Definição
A fé, pela qual os homens são membros da Igreja, é invisível (Lc 17.20-21). Manifesta-se, contudo, de várias maneiras. Todos os verdadeiros crentes confessarão sua fé. Porque com o coração se crê para justiça e com a boca se confessa respeito da salvação (Rm 10.10; Mt 10.32). Também provarão sua fé por uma vida piedosa, brilhando sua luz diante dos homens, para que vejam suas boas obras e glorifiquem a seu Pai que está nos céus (Mt 5.16). Nutrirão sua vida espiritual pelo uso diligente dos meios da graça. Quem é de Deus ouve as palavras de Deus (Jo 8.47; 1 Co 11.26). Assim, os crentes se tornam reconhecíveis por outros por sua confissão de fé, sua vida piedosa, seu comparecimento ao culto público. Essas coisas são a evidência exterior de sua fé invisível. A fé torna os homens cristãos. Mas apenas a confissão lhes dá a marca de cristãos. Por nossa fé somos conhecidos do Senhor como pertencentes a ele; por nossa confissão somos conhecidos uns dos outros como sendo Seus filhos. A totalidade das pessoas que à base de sua confissão em palavra e obra devemos considerar cristãos, constitui a igreja visível.
No entanto, hipócritas podem simular essas manifestações da fé. Têm a forma de piedade (2 Tm 3.5). Como é impossível distinguir esse joio do trigo (Mt 13.24-26), são contados com os cristãos na igreja visível. “Em seu sentido amplo, a igreja compreende bons e maus. Os ímpios estão na igreja apenas de nome, não de fato, mas os bons estão na igreja de fato e de nome” (Apologia da Confissão, Art VII e VIII, 11, 17-19, Livro de Concórdia, pp. 178-180). Os incrédulos unidos com a igreja visível não formam parte integral da Igreja, sendo antes um elemento estranho. Não lhes cabem os privilégios e deveres conferidos aos crentes, ainda que exteriormente deles participam. Contudo, no que diz respeito à aparência exterior, são membros da igreja visível ou da congregação.
Em resumo: a Igreja invisível é a totalidade daqueles que TÊM fé verdadeira no coração; a igreja visível é a totalidade daqueles que PROFESSAM a fé. A Igreja invisível está oculta na igreja visível.
Denominações eclesiásticas
A igreja visível está dividida em muitas denominações separadas, também chamadas igrejas. Há três grandes ramos da igreja visível: a Igreja Católica, Grega e Romana; a Igreja Reformada, que compreende grande número de denominações; a Igreja Luterana, que também se divide em vários corpos.
Essas denominações diferem umas das outras em pontos de doutrina, afirmando cada qual que seus ensinamentos são verdadeiros. É absurdo supor que todas essas igrejas têm os ensinamentos verdadeiros e corretos. A verdade pose ser uma só. Uma doutrina é verdadeira ou falsa. Não pode ser ambas as coisas. A verdade é intolerante. Não pode ter comunhão com o erro, assim como a luz não tem comunhão com as trevas (2 Co 6.14(. Só pode haver uma doutrina verdadeira a respeito da criação do mundo, a Santíssima Trindade, a pessoa de Cristo, a redenção, a conversão do homem etc., e tudo o que não concorda com essa doutrina, necessariamente deve ser falso.
Igrejas verdadeiras e falsas
A questão de uma igreja ser ou não a igreja verdadeira não pode ser determinada à base da fé pessoal e da sinceridade de seus membros, mas à base de sua doutrina pública, tal como se encontra em suas confissões oficiais. Se essas concordam com as Escrituras, mas a igreja, ainda assim, tolera que indivíduos de sua comunhão ensinem e difundam doutrinas falsas, o corpo eclesiástico inteiro deve ser considerado responsável pelos falsos ensinamentos do indivíduo. Deus não só exige que mantenhamos com firmeza a palavra fiel, mas também exortemos e convençamos o que contradiz (Tt 1.9). Se um falso mestre persistentemente se nega a dar ouvidos à verdade de Deus, devemos separar-nos dele (Rm 16.17; Tt 3.10). A disciplina eclesiástica não deve ser aplicada apenas no que diz respeito aos pecados da vida (Mt 18.15-17(, mas também com respeito a ensinos contrário às Escrituras (1 Tm 1.3).
Para ser verdadeira uma doutrina não precisa concordar com a razão humana, a ciência moderna, a opinião publica etc., mas deve concordar em todas as partes e pontos coma Palavra de Deus. A tua palavra é a verdade (Jo 17.17). Se vós permanecerdes na minha palavra… conhecereis a verdade (Jo 8.31-32). Na igreja de Deus não se ensinará nada além da Palavra de Deus. …ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado (Mt 28.20). Se alguém fala, fale de acordo com os oráculos de Deus (1 Pe 4.11; Is 8.20). ensinar  qualquer outra doutrina é contrário à vontade de Deus. …a fim de que não ensinem outra doutrina (1 Tm 1.3; Jr 23.31). Os filhos de Deus são até obrigados a evitar os que persistentemente ensinam de maneira diferente da Palavra de Deus (1 Tm 6.3-5; Rm 16.17).
Desta forma, a igreja verdadeira é aquela que em todas as suas doutrinas adere estritamente à Palavra de Deus. Igreja falsa é aquela que em um ou mais pontos se afasta dos ensinamentos da Palavra de Deus. Quando chamamos de falsa uma igreja, não julgamos a fé pessoal de seus membros individuais, mas apenas suas doutrinas públicas, tais como estão em suas confissões.
Torna-se, assim, dever de cada cristão examinar pessoalmente os ensinamentos de sua igreja para ver se estão de acordo com os claros ensinamentos da Bíblia (At 17.11: 1 Jo 4.1). Não se pode resolver o caso fiando-se à palavra de outros. A questão é de convicção e responsabilidade pessoais. Não podemos aceitar qualquer doutrina firmados na autoridade de um professor ou pastor, sacerdote ou papa, nem porque um sínodo ou concílio eclesiástico assim o haja decretado, mas apenas porque é claramente ensinada na Palavra de Deus. “É a Palavra de Deus que estabelecerá artigos de fé, ninguém mais, nem mesmo um anjo” (Artigos de Esmalcalde, Parte II, Art. II, 15, Livro de Concórdia, p. 316, cf. Gl 1.8).
Quando dizemos que uma igreja é falsa, de modo nenhum queremos insinuar que não há cristãos nessas igrejas, ou que é impossível alguém ser salvo nelas. Não julgamos a fé pessoal de seus membros,marcando-os como hipócritas e gentios, mas julgamos apenas aquelas doutrinas públicas que não concordam com a Palavra de Deus.
A igreja ou congregação local
A Bíblia fala de igrejas pela Judéia, Galiléia e Samaria (At 9.31), da igreja em Corinto (1 Co 1.2), e da igreja em Jerusalém (At 8.1). Nesses textos a palavra “igreja” não se refere a cristãos aqui e acolá no mundo, mas aos cristãos em determinado lugar, entre os quais existia comunhão definida (At 2.42; 4.32).
A congregação local é organização visível. É o resultado natural da obediência à ordem divina no sentido de reunir-se para ouvir a Palavra de Deus e administrar os sacramentos. Hipócritas a ela pertencentes são membros apenas de nome, não de fato. Não formam parte integral da congregação. A igreja local de Corinto era constituída apenas pelos santificados em Cristo, chamados para serem santos (1 Co 1.2). Todos os que criam eram membros da igreja em Jerusalém. De sorte que apenas os verdadeiros crentes em dada congregação realmente constituem a igreja à qual Cristo dá o ofício das chaves (Cf. Apologia da Confissão, Art. VII e VIII, 3, Livro de Concórdia, p. 177).
Já que os cristãos devem estabelecer o ministério da palavra em seu meio, exercer disciplina fraternal, participar da ceia do Senhor em testemunho da comunhão de fé, todo cristão alegremente se tornará e permanecerá membro de uma igreja local.
A congregação local é reconhecida como igreja visível nas Escrituras (Mt 18.17,20; At 9.31; 1 Co 1.2; At 8.1). Nada lemos a respeito de sínodos e organizações similares naquela época. Em nossos dias, sínodos e organizações similares são formadas por um número de congregações para finalidades outras que não o estabelecimento do ministério público. Existem por direito humano, e visto que suas finalidades, embora relacionadas, não são os propósitos fundamentais de uma congregação local, não possuem as prerrogativas e poderes da igreja local. Servem, todavia, como grandes bênçãos a congregações locais e cristãos individuais, porque com o esforço unido grandes coisas podem ser alcançadas para o reino de Deus.
(Você sabe quem é o autor desta mensagem? Informe-nos, para que possamos dar os devidos créditos. Escreva para reveder@gmail.com)

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