Um carnaval de incertezas

Antes de tudo, dois relatos: 
1 – Uma multidão entra cantando e dançando na avenida principal de uma capital ao som de buzinas e instrumentos. À frente, uma carro enfeitado puxa o cortejo. Sobre ele, uma enorme caixa cheia de símbolos e ornamentos coloridos. Ao lado, um homem fantasiado, reconhecido como rei, também dança e pula com toda sua energia. Ele e a caixa centralizam a atenção dos olhares enquanto a multidão vai entrando na cidade.  Depois da festa, aquele homem que liderava a dança, leva um xingão de uma amiga íntima. Ela lhe diz: “Que bela figura fez hoje o rei…! Parecia um sem-vergonha, mostrando o corpo para as empregadas dos seus funcionários!”
2 – Numa manhã de sábado ensolarada, em plena cidade litorânea do Brasil, cerca de mil e duzentas pessoas se aprumam atrás de um trio elétrico, preparando-se para uma caminhada de impacto. Sobre o caminhão, se instala uma banda de renome. Os músicos,  na maioria negros, ensaiam os primeiros acordes. O som é de alto pique, fortemente ritmado. É dada a arrancada e o carro começa a andar, já com os tambores, tamborins, pandeiros, guitarra, violão, contra-baixo, misturando samba, reggae e baião.  Durante quase três horas a caravana invade as principais ruas da cidade. O trânsito pára. Buzinadas acordam quem ainda conseguia dormir. Olhares curiosos  espiam janela afora. A alegria contagia os transeuntes que entram no embalo e se integram ao grupo por alguns instantes.  Por causa do forte calor, os participantes se refrescam jogando água uns sobre os outros. Cantam, pulam, dançam e seguem seu caminho atrás da banda, até que, já perto do meio-dia, retornam ao local da saída. Cansados, suados e com fome, os participantes ficam na expectativa da continuação da festa logo à noite.
O que lembram estes dois relatos acima?  O carnaval? 
Com certeza há elementos neles que os aproximam da maior festa popular brasileira.  Mas não! Os acontecimentos descritos não têm nada a ver com o Carnaval. O primeiro é um relato bíblico envolvendo o rei Davi quando retornou vitorioso trazendo de volta a Jerusalém a Arca da Aliança. A autora da repreensão foi Mical, filha de Saul, ex-rei de Israel. O que ela falou é uma citação direta de 2 Samuel 6.20 na Linguagem de Hoje.
O segundo relato aconteceu no dia 30 de janeiro de 1999,  na cidade de Guarapari, litoral capixaba, no XXIV Congresso Nacional da JELB. Foi uma caminhada liderada por um carro-de-som, que de início, levou a banda De Todas as Tribos de Porto Alegre, RS. O que se buscava era marcar presença pública e convidar a população para o culto especial a ser realizado à noite no local do Congressão.  
Mas por que trago esses relatos para falar de Carnaval?  Talvez tenha frustrado aquele(a) que gostaria de ouvir logo que “Carnaval é pecado”. Entendo que afirmar isso pode ser atitude precipitada. Carnaval é um fenômeno! Como tal, é complexo. Há significados e jeitos diferentes, tanto para quem participa como para quem assiste e critica. Dizer simplesmente que é errado e que o cristão deve ficar o mais distante possível, não entendo como solução, nem encontro argumentos plausíveis para tal. Além do mais, considero  que não é nosso papel ficar só dizendo  por aí o que é ou não pecado. Isso cria dependência, consciências culpadas e talvez até injustiças.
Alguns, a esta altura, já devem estar pensando que estou amenizando o assunto. Sei de pessoas que preferem dizer que “Carnaval é coisa do Diabo e pronto!”.  Até entendo, pois a formação de muitos foi direcionada para esse pensamento. Não nego que Carnaval pode apresentar o aspecto da idolatria, onde os desfiles são ao mesmo tempo um culto às divindades pagãs dentro da religiosidade afro-brasileira. Não nego que o Carnaval é uma festa onde os traficantes e bicheiros exploram e ampliam o mercado escravizando mais ainda os já dominados. Não nego que o carnaval prima por exageros e inversões de valores que causam mais pobreza e estragos físicos e emocionais. Ninguém duvida de que o “espírito” do Carnaval é liberar, passar dos limites. Uma danceteria de Florianópolis, a Lupos Bier, tem o seguinte slogan para esta data: “Solte o lobo-mau que existe dentro de você”.  A de se considerar ainda o fator cultural onde o Carnaval é tido por alguns antropólogos como uma construção da classe oprimida (se preferirem: os excluídos) que através dele conseguem inverter papéis sociais. Ele oferece a oportunidade de realizar o sonho do poder, do luxo e da alegria, realidade ausente durante o resto do ano. É também nele que o “patrão”, o rico empresário,  precisa se sujeitar e desembolsar bons trocados para entrar na folia e aparecer na Mídia. Ciente de todos esses aspectos, ainda não me coloco ao lado daqueles que querem simplesmente fuzilar o moral dos foliões. 
Vejam bem! Não estou dizendo que não há problemas no Carnaval.  Minha intenção é relativizar opiniões e gerar certa “crise” nas críticas impiedosas. Se de um lado o Carnaval oportuniza exagero, liberação da libido, desrespeito, contravenção, lembro também que tende a um falso moralismo. O que dizer daqueles que apontam o dedo contra os que vão a um baile carnavalesco ou ao sambódromo, mas ficam em casa se deliciando frente as imagens coloridas e desnudas na televisão e aguardam ansiosos a vinheta da morena Globeleza? Às vezes, num baile ou numa festa de um bloco, não se faz nada mais do que se faz o ano inteiro em outras oportunidades.  O fato de ser época de Carnaval não agrava mais um possível pecado que pode ser cometido em outros momentos.
Lembro ainda que é durante o período de Carnaval que muitas Igrejas e grupos de jovens realizam seus retiros espirituais que, por vezes, honram ao Senhor e trazem muitas bênçãos.  Mas também esses retiros podem ser pecaminosos, pois dele participam pecadores(as) vulneráveis às tentações.  Não é “fugindo” fisicamente do mundo profano que nos aproximamos de Deus! Esta verdade é um dos grandes legados de Lutero.
Talvez você deva estar pensando que até agora eu não afirmei nada com certeza.  Quem sabe seja essa a intenção desses linhas. Meu propósito, mais do que dizer, é fazer pensar.  Pensar sobre nossos julgamentos; nossa relação com o mundo e sua lógica; sobre nossas intenções ao participarmos de festas, seja entre irmãos da igreja ou em ambientes da sociedade.  O Carnaval é um fenômeno da criatividade humana a serviço de seus sonhos e desejos. Para quem não é Nova Criatura, regenerada pelo sangue de Cristo, não há razão para não participar. Por vezes exigimos pensamento cristão de quem não conhece a vontade divina. 
Entrar no embalo carnavalesco faz parte da vida, da cultura, do brasileiro.  Se você, pela graça de Deus, enxerga o mundo e suas alegrias de outro modo e não precisa destes embalos para ser gente, seja criativo e, com amor, contagie os outros com a paz de Deus que é a fonte para uma vida feliz. Não basta tirar e condenar oportunidades. É preciso oferecer coisa melhor.  
Quem sabe esse é o nosso desafio diante do Carnaval: mostrar qual é a alegria que excede o humano entendimento e que não se limita a quatro dias e não deixa ressaca. Assim, a exemplo do rei Davi, ainda cansado de tanto pular e dançar, com fé e esperança, poderemos proclamar: “Eu estava dançando em louvor ao Deus Eterno, (…) pois eu continuarei a dançar em louvor ao Eterno e me humilharei ainda mais diante dele” (2Sm 6.21-22 na BLH).  
Em meio a este “carnaval” de incertezas em que vivemos, no qual nos enganamos com a aparência de muitas coisas e onde uma dança de adoração e uma passeata de jovens luteranos pode parecer Carnaval para alguns, aprendamos a decidir com responsabilidade o que fazer dentro da liberdade cristã, sem esquecer que nossas escolhas precisam considerar o que o outro pensa, o que o outro gostaria e espera de nós e, acima de tudo, pensar, agir e falar com amor.  Exercitando o respeito e o amor ao outro diferente de nós, é possível crescer na compreensão da graça de Deus e no louvar alegre e sincero sem precisar de fantasias, máscaras, álcool, tóxicos ou feriados próprios para tal.  
Vejo que é por aí que algumas diretrizes poderia apontar para nossa posição frente ao Carnaval. Hoje escrevi e pensei assim. Paro por aqui antes de ser tentado a mudar, porque amanhã, talvez, acrescentaria outras coisas mais edificantes, pela graça de Deus.
(Rev. Augusto Kirchhein -22-02-2000)

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