Lc 22.1-23 – No meio da Páscoa uma grande tentação e uma grande lição (mensagem)

                                           Ramos – 2004
Trienal C:  Sl 92        Dt 32.36-39     Fp 2.5-11      Lc 22.1-23    
Tema:  No meio da Páscoa uma grande tentação… Por isto também uma grande lição …  
Dias atrás vimos pela televisão uma guerra de propaganda entre duas marcas de cerveja onde o caso agora foi parar na justiça. Nesta polêmica que foi muito comentada nos jornais  está envolvido o famoso cantor Zeca Pagodinho. Tempos atrás ele tinha feito um comercial para uma marca de cerveja, com a frase que ficou famosa EXPERIMENTA, experimenta … Ele tinha um contrato com esta empresa, e não podia fazer propaganda para outra marca por algum tempo. Mas ele descumpriu o contrato, sendo garoto propaganda para uma marca de cerveja concorrente. Depois disto veio outra propaganda chamando indiretamente Zeca Pagodinho de traidor, acusando-o de ter-se vendido por 3 milhões de dólares.
A gente conhece muitas outras histórias de pessoas que cometeram traições, tudo por dinheiro. Por exemplo, na política todo dia aparece uma nova história. O último caso famoso é a história de Valdomiro Diniz que traiu o governo com os jogos de loterias.
Mas também dentro da igreja não faltam histórias deste tipo. E o Evangelho de hoje nos conta uma delas.
Por trinta moedas de prata, um dos doze discípulos vendeu aquele que era o seu melhor amigo.
30 moedas de prata correspondia ao valor de 3 meses de trabalho de um empregado comum. Este também era o valor de um escravo naquele tempo. Quem sabe hoje as trinta moedas de prata valessem uns mil reais.
Pois este foi o valor pago pela vida de Jesus. 
E assim começaram os preparativos para a primeira Páscoa cristã: Jesus sendo negociado por uns mil reais.
Tudo por dinheiro. É assim que ainda hoje muitos estão se preparando para a Páscoa. Afinal, a Semana Santa é um período muito oportuno pra se ganhar uns trocos a mais. Chocolates, ovos de páscoa, peixe, turismo. Enfim, é lucro para alguns e despesa para outros. Por isto também uma correria parecida com a do fim de ano, em busca dos melhores preços no supermercado e nas lojas. Afinal, o dinheiro está escasso, e não dá pra deixar faltar os ovos de chocolate e o peixe da Sexta-feira santa.
 
Judas também estava se preparando para festejar a Páscoa. 
Ele era um dos discípulos de Jesus, e por isto também foi para ele a ordem de Jesus: – vão e preparem o jantar da Páscoa para nós.
Mas Judas tinha muitas preocupações. Pra resolver seus problemas, ele precisava de dinheiro. Também naquele tempo a solução para os problemas era o dinheiro. Por isto, enquanto preparavam a Páscoa, Judas estava com a cabeça bem longe, pensando em como conseguir uns trocados pra ficar mais tranqüilo, sem preocupações. 
Mas Judas, tentando resolver seus problemas financeiros, se meteu num negócio que lhe traria um problema muito maior.
Ora, também temos contas e mais contas para pagar. Será que uns mil reais hoje não nos livraria de algumas preocupações?
Na verdade nunca conseguimos nos livrar das contas. Recém estamos no mês de abril, e a maioria já está estressada com dívidas, apavorada com os preços do supermercado, da farmácia, da escola… Com as contas da luz, água, telefone, e tantas outras…
E agora está aí outra vez a Semana Santa. Como nós conseguimos encaixar as nossas preocupações com as contas pra pagar com esta história de Jesus da Semana Santa?
Será que não podemos estar sendo tentados, como Judas foi tentado, em resolver um problema que traga mais problemas ainda?
Alguém pode estar pensando: Espera aí, pastor, eu nunca faria o que fez Judas! Eu nunca entregaria Jesus por dinheiro!
De fato, isto é uma coisa que nem passa por nossa cabeça. É a última coisa que faríamos.
Mas se pensarmos bem, a traição de Judas é uma tentação que ninguém está livre. Nós que sempre estamos tão preocupados com os preços das coisas, com os negócios, com o salário, enfim com o maldito dinheiro. Porque na verdade, tudo envolve dinheiro. Até dentro da igreja, vira e mexe, precisamos de dinheiro para fazer isto e fazer aquilo. Sempre estamos correndo atrás do dinheiro … 
E nada de errado nisto. 
Jesus mesmo e os discípulos lidavam com o dinheiro. Eles tinham até um tesoureiro, assim como as nossas igrejas hoje. O tesoureiro era o próprio Judas, que cuidava das contas deste seminário, desta escola de Jesus com os discípulos.
Lidar com contas faz parte da vida humana e também da própria igreja. 
Mas, neste mundo dos negócios, todos podemos ser tentados da mesma forma como Judas foi … 
Por isto, é muito fácil julgar o Judas traidor. É muito fácil malhar o Judas. Mas nestas horas precisamos sempre lembrar de que enquanto um dedo aponta para os pecados dos outros, tem três apontando para nós mesmos… Quem não tem pecado, que atire a primeira pedra, já disse Jesus…
Outra coisa que precisamos lembrar é que Judas não precisava se enforcar, se matar. Se ele estava arrependido, então bastava acreditar no amor de Jesus, amor que ama também os amigos traidores, que é o por tipo de inimigo. Por mais infame que fosse o pecado dele, ele seria aceito por Jesus, assim como Pedro foi aceito.
Disto não podemos duvidar: se Judas era ganancioso, a ponto de vender o melhor amigo, mesmo assim, ele ainda tinha salvação. Ele tinha salvação da mesma forma como aquele malfeitor na cruz, que na última hora se arrependeu.
Judas cometeu, sim, um terrível pecado. Mas este pecado, esta conta estava ressarcida na cruz. Ou como disse o apóstolo em Colossenses, “Jesus acabou com esta conta (dos pecados), pregando-a na cruz” (Cl 2.14).
Por isto, antes de cometermos o pecado de julgar o coitado do Judas, deveríamos levar mais a sério esta história de traição como exemplo para nós mesmo, nós que também somos discípulos de Jesus, e por isto, alvo constante de Satanás que faz de tudo para cairmos em armadilhas – tentações que estão por toda parte, neste mundo que faz tudo por dinheiro.
 
Lemos no Evangelho, Lucas 22. 2,3, que “os chefes dos sacerdotes e os professores da Lei procuravam um jeito para matar Jesus secretamente … Então Satanás entrou em Judas”.
Esta é a primeira coisa que devemos aprender nesta história de traição.
Porque, na verdade, ainda hoje existem planos para matar Jesus secretamente. 
– Onde Jesus se encontra hoje?
Ele está vivo na Palavra e nos Sacramentos. Então ele pode ser morto através …
– de ensinamentos contrários a Bíblia – doutrinas falsas, heresias
– da rejeição da Palavra (não ler a Bíblia, não ir ao cultos e estudos bíblicos)
Mas Jesus também está vivo na vida do cristão. Cristo vive em 
mim, diz o apóstolo Paulo. Isto quer dizer que Jesus também pode ser morto através
– de uma vida cristã que não esteja de acordo com os ensinamentos bíblicos 
– de uma vida cheia de pecados e falta de arrependimento.
Enfim, se naquele tempo estavam em segredo armando um 
plano para matar Jesus, e assim se livrar dele, hoje os inimigos de Deus continuam com este mesmo plano. E tudo de maneira muito sutil, sem ninguém perceber.
E como tentam fazer isto? Da mesma forma como foi com Judas!
Satanás entra nos discípulos de Jesus, aqueles que estão próximos a Jesus, e transforma estes discípulos em traidores. É a tática do inimigo de se infiltrar, se fazendo de amigo. É assim que fazem na guerra. 
Saddam Hussein foi pego assim. Um guarda-costa dele, que era um grande amigo, lhe entregou por dinheiro. Se não fosse esta informação, ainda hoje, quem sabe, estariam procurando Saddan.
Pois Satanás faz assim. Ele tenta transformar os discípulos de Jesus em traidores. Ele entra nos cristãos. Não da maneira como certas igrejas mostram, quando fazem aquelas sessões de exorcismo, em que as pessoas se jogam no chão e fazem todo aquele barulho. A estratégia do grande inimigo de Cristo é agir secretamente.
Certamente Judas não percebeu que Satanás estava agindo nele e através dele, pela cobiça ao dinheiro, pela inveja, ódio, preocupações materiais, orgulho e outros pecados …
Por isto alerta a Bíblia: “meus irmãos, cuidado para que nenhum de vocês tenha um coração tão mau e incrédulo, que o leve a se afastar do Deus vivo” (Hebreus 3.12)
Judas tinha uma fraqueza que ele não conseguia esconder – a sua ganância, sua grande preocupação com o dinheiro. Isto está bem evidente naquela história da mulher que derramou um perfume na cabeça de Jesus. Maria, irmã de Lázaro, para agradar Jesus, comprou um perfume no valor de 300 moedas de prata, e derramou em Jesus. Judas ficou muito irritado com isto, e disse que aquilo era um desperdício, um dinheiro que podia ser usado para os pobres.
O evangelista, no entanto escreve: “Ele disse isso, não porque quisesse ajudar os pobres, mas porque era ladrão. Ele tomava conta do dinheiro e costumava rouba-lo” (João 12.6).
Jesus neste momento disse para Judas e aos outros discípulos que foram influenciados por esta conversa: – Deixem Maria em paz. Ela guardou isto para o dia do meu enterro
Depois disto Judas saiu dali e foi se encontrar com aqueles que queriam matar Jesus. Assim, enquanto Maria fazia a sua oferta de 300 moedas de prata para honrar Jesus (mais ou menos uns 10 mil reais), Judas foi negociar Jesus por 30 moedas de prata (mil reais).
Este era o valor que Judas dava para o seu amigo, o melhor amigo que ele tinha. Ele havia sido escolhido por Jesus, entre tantas pessoas, para ser um dos doze discípulos. Mas a sua ganância foi a porta para que Satanás entrasse no coração dele.
Na verdade, todos temos este mal dentro de nós. Alguns em maior medida, outros em menor. A ganância faz parte do ser humano, também do cristão.
No hino 394 do Hinário Luterano, tem um alerta muito oportuno:
A cobiça do dinheiro é raiz de todo o mal
Cuide o crente verdadeiro
Que lhe pode ser fatal
Quantos já se distanciaram
Do caminho do Senhor
E da fé se desviaram
Vítimas de angústia e dor.
Quantos ainda hoje trocam Jesus por ninharia. Afastam-se da comunhão cristã com desculpas de precisam trabalhar para ganhar dinheiro e pagar suas contas. Outros afastam-se porque dizem que a igreja só quer o seu dinheiro. Dizem isto porque, ou não participam do encontro Primeiro ao Senhor, ou porque não abrem o coração para entender o significado da oferta, o mesmo significado do gesto de Maria que honrou Jesus com aquele perfume.
 
Na verdade, todo o problema de Judas estava lã no primeiro mandamento, que diz: eu sou o teu Deus, não terás outros deuses diante de mim.
O deus de Judas se tornou o dinheiro porque ele não confiou em Deus, que podia livra-lo de todos os problemas e preocupações. Judas esqueceu daquelas palavras de Deuteronômio 32.39 (leitura do Antigo Testamento: “Saibam todos que eu, somente eu, sou Deus: não há outro deus além de mim”. 
Por isto explicou Lutero: Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de todas as coisas.
 
Pois estimados irmãos, se não fosse Jesus ter abandonado tudo o que tinha… se rebaixado, andando nos caminhos da obediência até a morte – e morte de cruz (Filipenses 2.7,8), nenhum de nós estaria hoje aqui, rendendo este culto, e adorando este único Deus.
E na mais alta honra de discípulos de Jesus, também para nós hoje Jesus faz um pedido: vão e preparem o jantar da Páscoa para nós.
A Páscoa não é apenas um Domingo do ano, mas são todos os dias, quando podemos lembrar que Jesus morreu para nos livrar da maior conta deste mundo, os nossos pecados, e que ressuscitou e está presente entre nós com seu poder e amor.
Sim, enquanto isto vivemos neste mundo com outras contas para pagar. E é por isto mesmo, para não cairmos na mesma tentação de Judas, que precisamos sempre preparar a Páscoa para cear com Jesus. Amém.
Reva. Marcos Schmidt (2004)

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