Sermão de C. F. W. Walter para a Reforma (1876)

Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (Judas 1.3 RA) 

Oração: Senhor Jesus, a luta que nossos pais travaram no passado foi árdua, mas gloriosa a vitória que presenteaste a eles. Por isso nós te louvamos, hoje, jubilosos e alegres. Pois o que nossos pais sofreram em prol de tua santa e pura Palavra é hoje nossa preciosa herança e de nossos filhos.

Mas, esta santa luta ainda não terminou, pois nosso inimigo procura roubar-nos continuamente o que nós deste. Daí a necessidade da contínua admoestação: Batalhai diligentemente pela fé, que uma vez por todas foi entregue aos santos.

Por isso clamamos a ti, ó Senhor: Ajuda-nos para, como nossos pais, a lutar para que retenhamos a vitória, sejamos coroados por ti para podermos jubilar com nossos pais por toda a eternidade. Amém. 

Introdução

Estimados irmãos na fé luterana, confissão e luta.

A história da Reforma, que relembramos e celebramos hoje, é a história de uma luta de 30 anos, iniciada em 1517, quando Lutero publicou suas 95 teses contra as abomináveis indulgências, até ao faleceu em 1546. Esta luta não foi tanto uma batalha física, mas espiritual. De um lato estava Lutero, o monge indefeso, sem nenhuma arma em suas mãos, somente a Bíblia, apoiado por poucos temerosos amigos; do outro lado estava o bem apoiado Papa de Roma com sua espada de dois gumes, do poder temporal e do poder espiritual. O Papa de Roma retinha em suas mãos o poder sobre a Igreja e o poder sobre o Estado, suportado por um incontável número de prelados, cardeais, bispos e arcebispos, sacerdotes, monges e freiras, bem como da mais alta e poderosa autoridade do império naquele tempo do cristianismo, o Imperador. De um lado, o erro, do outro lado, a verdade. De um lado, a palavra humana, do outro lado, a palavra de Deus. E o principal, de um lado, de forma invisível, Jesus Cristo, o rei da verdade, o Senhor da salvação com todos os seus anjos, do outro lado Satanás, o príncipe das trevas e da ruína, com todo seu exercito infernal.

Hoje, 3591 anos após o dia 31 de outubro de 1517, no qual Lutero declarou guerra ao Papa de Roma, pregando as 95 teses contra o tráfico das Indulgências, cingido da espada do Espírito. Como Davi, no passado, com sua funda contra Golias; assim Lutero saiu de sua escura cela do mosteiro em nome do Senhor, do Deus vivo, e deu o sinal a todos os fiéis que estavam do lado de Deus e da verdadeira igreja, para o ataque e a guerra mais santa já travada nesta terra.

Daí por diante seguiu-se uma luta após a outra, tanto oral como por escrito. Em 1518, Lutero venceu em na cidade de Augsburgo um duelo secreto com o cardeal Caetano. A discussão girou em torno da palavra “revoco”, isto é, revogo. Toda a retórica do astuto italiano foi em vão. Ele não conseguiu levar Lutero a revogar. Lutero deixou a arena como vitorioso.

No ano seguinte, em 1519, seguiu um debate público entre Lutero e o astuto monge dominical, Dr. Eck. Neste debate em Leipzig, o tema foi a autoridade do Santo Papa e dos Concílios. Após o debate todos os que são da verdade, mesmo alguns papistas, atribuíram a vitória a Lutero.

Dois anos depois, em 1521, Lutero foi convocado para comparecer, pessoalmente, à Dieta de Worms, diante do Imperador, para se defender e ser julgado. Todos seus amigos estremeceram, mas Lutero não. Ele afirmou: “E se houver tantos demônios como telhas nos telhados em Worms eu irei. E ainda que meus inimigos fizessem, entre Wittenberg e Worms, uma fogueira que se erguesse até aos céus, eu haveria de comparecer em nome do Senhor e me enfiaria na boca do diabo, entre os seus enormes dentes, para confessar Cristo, entregando tudo nas sábias mãos de Deus.” Assim começou a árdua luta. E vejam! Como Daniel na cova dos Leões e os três homens no forno ardente, saíram ilesos, assim Lutero deixou Worms sem ser vencido. Sua declaração final foi e permanece: “Aqui estou. Não posso de outra forma. Que Deus me ajude. Amém.”

Uma segunda batalha árdua se desenrolou na entrega da Confissão na Dieta de Augsburgo, no ao de 1530. Por Lutero ter sido excomungado pele Papa e ser proscrito pelo Imperador, ele não pôde comparecer pessoalmente junto com os demais confessores nesta grande e decisiva Dieta. Porém, como comandante em chefe eleito por Deus para esta luta, não foi somente ele que pelas teses de Torgau, por assim dizer, ditou o plano dos artigos de paz, mas foi ele também que durante a Dieta, por suas cartas diárias de Coburg dava orientação e ânimo ao pequeno grupo em Augsbrugo. E o que aconteceu? O que Lutero compôs e cantava durante a árdua batalha: Castelo forte, é nosso Deus, defesa e boa espada; da angústia livra desde os céus, nossa alma atribulada. – Isto se cumpriu maravilhosamente. Também esta decisiva luta foi vencida. Apesar das ameaças do Imperador. No encerramento da Dieta, cantava-se nas tenda dos justos, em toda a cristandade a vitória.

A história da Reforma, estimados em Cristo, não é somente a história de uma luta para fora, mas também de uma luta espiritual doméstica.

Após Zwínglio, o pregador suíço, ter concordado com Lutero e lutado corajosamente com ele pela palavra de Deus contra as doutrinas humanas do papado, Zwinglio desviou-se da verdade e declarou: É contra a razão humana crer que o corpo e o sangue de Cristo estejam na Santa ceia. Com espanto Lutero notou que Zwínglio colocou a razão humana em lugar do Papa. Após troca de várias correspondências, marcaram, no ano de 1529 um debate na cidade de Marburgo. Seria uma luta decisiva. A disputa girou em torno da frase: Será que as palavras do onipotente Filho de Deus: “Isto é o meu corpo, isto é, o meu sangue”, estão firmes ou esta palavra de Deus deve dar lugar à razão e ser interpretada figurativamente? Esta foi a segunda guerra. Esta pergunta foi decidida em Marburgo. E graças a Deus! Também aqui, como em Worms, Lutero não cedeu. Assim Lutero livrou a igreja tanto da autoridade do Papa como da autoridade da razão humana.

Lutero lutou constantemente até ser chamado à pátria celestial, à paz celestial onde foi, como esperamos, coroado como todos os fiéis lutadores, para celebrar o triunfo de Cristo eternamente.

O que segue agora, irmãos e irmãs? Será que a vitória da Reforma trouxe paz à igreja? Não! A igreja só triunfará no céu, aqui na terra ela é uma igreja militante, isto é, ela precisa lutar até soar a última trombeta. Isto é mostrado em todos as páginas da Bíblia, e entre outras escreve o apóstolo Judas Tadeu: Exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.

À base destas palavras quero responder a pergunta:  

Porque não podemos nem devemos parar de lutar pela verdadeira doutrina de nossa igreja?  

  1. Porque a doutrina pura de nossa igreja não é nossa propriedade, mas um bem que nos foi confiado para fiel administração;
  2. Porque a perda desse tesouro é algo mais terrível do que a luta e discórdia entre as pessoas.
  3. Porque esta luta é nos ordenada por Deus, por isso ela é uma luta abençoada aqui e na eternidade.

I – Parte
A primeira razão pela qual se supõe ser hora de parar de lutar pela doutrina pura de nossa igreja é, como muitos pensam, ser esta luta contra o amor.

Dizem que Cristo o afirmou com as seguintes palavras: Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros. (João 13.35 RA) O apóstolo João também afirma: Nós sabemos que já passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; aquele que não ama permanece na morte. (1 João 3.14 RA) E o apóstolo Paulo atesta: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor. (1 Coríntios 13.1,13 RA) Quando os gálatas brigaram entre si, o apóstolo Paulo lhes recomendou: Se vós, porém, vos mordeis e devorais uns aos outros, vede que não sejais mutuamente destruídos. (Gálatas 5.15 RA)

Por mais certo que sejam estas afirmações de que o amor aos irmãos é o indispensável sinal dos verdadeiros cristãos, que sem amor todas as outras virtudes são somente aparências, e todos os dons, por mais altos que sejam, são inúteis, e que lutas e brigas só trazem ruína; mas à base disto não se pode afirmar que tenha chegada a hora de abrirmos mão da luta pela doutrina pura em nossa igreja. Pois o apóstolo também escreve: Exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Da verdadeira fé o apóstolo afirma que esta luta lhe é ordenada. A verdadeira fé ou o que é o mesmo, a verdadeira doutrina não foi simplesmente entregue aos santos para que pudessem fazer com ela o que bem quisessem. Ela não foi entregue para ser sua propriedade sobre a qual eles têm plena liberdade para fazer com ela o que bem quiserem. Não. Ela lhes foi entregue como um bem alheio, como um bem e propriedade de Deus, confiada a eles, para que como servos fiéis a administrem e a conservem bem.

Julguem, portanto, vocês mesmos: Será que o amor requer de um administrador que ele dê algo do que lhe foi confiado a outrem? Isente os devedores do seu senhor? Permita que outros tirem dele os tesouros que seu senhor lhe confiou? Por exemplo, será que foi amor que moveu o administrador infiel a perdoar ao que devia cem latas de azeite, dizendo ao credor, senta-te e escreve cinqüenta? (Lc 16.1-13). Não, isto é infidelidade, sim roubo e furto?

É por esta razão que Jesus o chama de “administrador infiel” (Lc 16.8). Seria amor se um general no campo de batalha, para evitar a luta e o combate, entregasse ao inimigo uma porta do muro que lhe foi confiado para defendê-la? Não seria tal general chamado a prestar contas de sua ação e condenado como traidor da pátria? Seria amor tirar bens de outrem para fazer o auxiliar os pobres? E finalmente, seria amor se Lutero, ao notar que a verdade que ele reconheceu na Bíblia, por suscita tantas discussões e brigas, resolvesse silenciar imediatamente? Julguem vocês mesmos. Seria amor se nós luteranos, na luta pela doutrina pura que nos foi concedida para administrá-la fielmente, abríssemos mão dela? Ou, a fim de fazer amigos e a passar por pessoas de amor e paz, deixasse a verdade de lado? Não! Isto não seria amor cristão, nem amor para com o próximo, muito menos amor a Deus, mas amor próprio. Seríamos nós administradores fiéis do grande tesouro que Deus nos confiou? Não, pelo contrário, seríamos administradores infiéis de bens alheiros, o que é roubo diante de Deus. E ladrões não herdam a vida eterna.

Na verdade, nosso amor deve estar pronto a, por amor à paz, nas coisas sobre as quais temos poder, ceder, mas não sobre coisas sobre as quais não temos o poder de decisão. Nosso amor deve estar pronto a sacrificar tudo o que temos, mesmo nossa vida se necessário. É por isso que no ano 1522, Lutero disse a seus oponentes: “Meu amor está pronto a morrer por vocês…; mas a fé ou a Palavra vocês devem adorar. De nosso amor vocês podem requerer o que quiserem; nossa fé, porém, vocês devem temer.” (Walch, XIX, 660).

Queridos amigos, colaboradores, confessores e lutadores luteranos, não nos deixemos enganar nem amedrontar, se hoje nos acusam de sermos pessoas sem amor, por lutarmos pela pureza de doutrina em nossa igreja.

Mantenham em mente: a doutrina é, como diz o nosso texto, a fé, que uma vez por todas foi entregue aos santos. Ela não é nossa propriedade, não temos o poder nem a liberdade de fazer o que bem nos parecer, de abrir mão dela. Ela é propriedade de Deus, que nos foi confiada para administrá-la e não somente nós, mas toda a cristandade, sim, o mundo inteiro deve preservá-la e transmiti-la de forma inalterada à posteridade. No dia do juízo final, Deus pedirá contas, especialmente a nós luteranos, também com respeito à conservação da doutrina pura, quando nos dirá: Presta contas de tua administração.

Sabemos que é algo muito doloroso alguém ser taxada como uma pessoa sem amor. Tais acusações quebram o coração. Este ultraje, no entanto, todos os fiéis lutadores tiveram que carregar. Por isso nossos bem-aventurados pais afirmam em nossas Confissões: Dissentir do consenso de tantas gentes e ser chamado de cismático é grave. Mas a autoridade divina manda a todos que não sejam aliados e propugnadores de impiedade e injusta crueldade.” Do poder e Primado do Papa, 42; LC, pág. 353) Assim, para que o mundo veja que em nós luteranos habita o amor, queremos mostrá-lo de forma abundante nas coisas materiais; mas em questões de doutrina e de sua Palavra, que nos foi dada na Escritura Sagrada, a palavra de Cristo, queremos guiar-nos pela palavra de Jesus: Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. (Mt 10.37)

II – Parte

Estimados irmãos e irmãs, em segundo lugar, nós não podemos abrir mão da luta pela doutrina pura em nossa igreja porque a perda desse tesouro, é muito pior do que todas as brigas, e discórdias entre as pessoas.

Na verdade, a luta e as discussões que se travam em toda a cristandade, não somente entre diversas comunidade cristãs, mas também entre membros da mesma igreja é uma tristeza muito grande. Não há palavras, nem lágrimas de sangue suficientes para lamentar este triste fato. É lamentável ver que aqueles que querem ser filhos de um e mesmo Pai celestial, servos do mesmo Salvador, templos do mesmo Espírito Santo, que estes brigam entre si. É lamentável que aqueles que deveriam estar unidos como um só homem, para lutarem contra os inúmeros inimigos do cristianismo, que estes puxam suas espadas um contra o outro. Como o diabo deve estar se alegrando e pulando ao ver esta desunião entre os cristãos? Muitos incrédulos se chocam nisso e não querem saber mais nada do cristianismo, pois dizem: Como o cristianismo quer ser ela a única religião que salva, se os membros brigam tanto entre si? E quantos cristãos fracos já se escandalizam nisso e abandonaram a fé, voltando ao mundo? – Como, indagam muitos, não é tempo de nos luteranos pararmos com esta luta pela doutrina? Que nós, como Isaías profetizou, transformemos nossas espadas em arados e nossas lanças em foices? (Is 2.4) É tempo de estendermos as mãos a todos os cristãos para reconciliação, para formar uma grande comunidade de paz e união?

Sem dúvida, estimados irmãos. Se nos luteranos pudéssemos comprar com o nosso sangue um belo e geral tratado de paz, nenhum luterano, nem pregador, deveria considerar seu sangue demasiadamente valioso, antes com mil alegrias derramá-lo. E mesmo assim, não devemos abrir mão de nossa luta pela doutrina pura em nossa igreja. É isto que a Sagrada Escritura nos ensina. É isto que também o nosso texto no-lo mostra: Exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. (v.3) Vejam, por o apóstolo escrever aos cristãos a cerca de nossa comum salvação. Por isso ele considera necessário, exortá-los em primeiro lugar para que lutem pela fé. Conforme esta explicação apostólica, não se trata aqui de algo insignificante, mas de nossa comum salvação.

Como? Será que podemos ou devemos parar a luta pela doutrina bíblica pura? Não! Nunca! – Sim, quando se trata de dinheiro e bens, honra pessoal, dias aprazíveis, em fim da luta por coisas terrenas: ai de nós, se não perguntarmos se isto promoverá a paz no mundo e na igreja, se através disso os incrédulos e fracos na fé não serão escandalizados, ou se através disso o reino de Deus será impedido. Uma outra coisa, no entanto, é, se nós lutamos pela fé, que foi dada aos santos.

Por isso todos os profetas e apóstolos e o próprio Cristo lutaram ininterruptamente pela verdadeira fé. Jesus afirma: Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.  Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.  Assim, os inimigos do homem serão os da sua própria casa. (Mateus 10.34-36 RA) A luta que surge por causa da doutrina pura é, por isso, não uma luta desastrosa, mas abençoada. Jesus ordenou lutar.

Se ninguém falsificasse a palavra de Deus, não haveria necessidade de lutar, então isto seria grave pecado. Mas por a natureza carnal, o mundo e Satanás tratarem continuamente de falsificar a palavra de Deus ou a doutrina pura – e ela nunca foi tanto falsificada quanto em nossos dias – vindo milhares de pessoas a perecerem eternamente devido a doutrina falsa. Será que diante disso podemos ou devemos permanecer calados só para não perturbar a paz terrena? E o que é pior, perder a paz terrena ou perder a paz da alma; ser roubado da paz terrena ou ser roubado do tesouro que nos traz a paz eterna? Não disse Jesus: Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma? (Mateus 16.26 RA)

Vejam, o que seria de nós se no quarto século, quando Arias atacou a divindade de Cristo, se Atanásio e outros não tivessem combatido esta falsa doutrina? Se no quinto século, quando Pelágio atacou a doutrina da salvação somente pela graça de Cristo, se Agostinha ou outros não tivessem combatido esse erro? Quando no décimo século, o Papado falsificou a maioria das doutrinas de Cristo, se Lutero e outros não tivessem combatido os erros? Ou quando no final do século 17, ao o racionalismo penetrar na igreja, se ninguém o tivesse combatido, simplesmente para evitar lutas e inimizades e manter a paz? O que seria da palavra de Deus? Onde estaria a igreja hoje? Onde estaria a doutrina correta que conduz ao céu? Tudo isso já teria desaparecido e milhares de pessoas rumariam para a eterna condenação.

Por isso, irmãos e irmãs, lamentamos de coração que continuamente se levantam falsos profetas que atacam a doutrina pura de nossa igreja, causando lutas e discussões na igreja; mas não lamentamos o fato por Deus, despertar continuamente pessoas que combatem os erros, por isso, louvamos e sejamos agradecidos a Deus, lembrando que: nossa salvação está em jogo.

III – Parte

E agora, irmãos e irmãs, o mais importante e a razão mais irrefutável pela qual não podemos abrir mão da luta pela doutrina pura é esta: O conflito nos é ordenado por Deus. Por isso ela, certamente, será abençoado por Deus no tempo e na eternidade. Permitam-me falar um pouco sobre isto e concedam-me mais um pouco de vossa atenção.

Temos hoje muitas cristãos bem intencionados que afirmam: Não rejeitamos todas as lutas pela doutrina pura no passado, pois nossos pais lutaram com toda a seriedade pela mesma. Assim, por exemplo, foi correto que Lutero, há quase 500 anos atrás, lutou corajosamente até à morte pelo evangelho contra as falsificações do papado. Esta luta teve um resultado como nunca houve na igreja.

Mas agora é tempo de por um fim a esta luta pela doutrina verdadeira, na qual cristãos lutam um contra o outro. Agora é tempo de juntos edificarmos a igreja em paz. Pois qual é o resultado de todas essas lutas?  Nenhum outro do que novas divisões e confusões na cristandade. Será?

Por bem intencionados que esses pregadores da paz sejam, eles estão labutando num grande erro.

Primeiro, não é verdade que em nossos dias, nos quais a luta pela verdadeira doutrina já dura 30 anos, tendo como resultado maiores divisões e confusões. Pelo contrário – e isso seja dito unicamente para a glória de Deus – o resultado da luta é que a igreja da reforma com suas doutrinas claras e puras está novamente entre nós, ressuscitada da morte. Mais de mil congregações se reuniram novamente em torno das Confissões de nossa igreja e da América ecoa novamente o puro evangelho para muitos países, conquistando novos confessores da verdade, que se reúnem sob esta bandeira de nossos pais.

Outros milhares de milhares que já estavam prontos a abrirem mão da verdade, foram por essa luta, pelo menos parados no caminho do erro, e motivados a passo por passo retornarem ao caminho da verdade. A luta atual pela verdade está sendo ricamente abençoada, além do esperado e nossas orações, suplicas ouvidas além de nossa compreensão.

E mesmo se não fosse assim; e parecesse que a luta pela verdade em nossos dias e em nossa igreja fosse infrutífera e vã, mesmo assim não poderíamos parar de lutar. E por que não? – Por Deus o ter ordenado com palavras claras. Pois quem, entre outros textos, está fala a nós pelo apóstolo Judas, exortando todos os santos, isto é, todos os fiéis, a batalharem diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos? Isto é o próprio e onipotente Deus. Pois os homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo. (2 Pe 1.21) O que precisamos mais? Que pessoa ou anjo poderia, se Deus o ordenou, dizer: Não lutem mais?

E ao lutarmos firmados na ordem de Deus, poderíamos temer que nossa luta seja vã? Não! Nunca! O que Deus faz e ordena é abençoado no tempo e na eternidade. Como o próprio Siraque afirma: Luta até a morte pela verdade e o Senhor Deus combaterá por ti (Eclesiástico 4.28 – ou Siraque, livro apócrifo)

Portanto, não demos ouvidos àqueles que louvam a luta do passado pelo evangelho, mas não querem saber hoje de uma luta igual. Deus ordenou: Batalhar pela fé. Isto vale para todos, também para os nossos dias. Que o zelo, com o qual Lutero e seus fiéis colaboradores lutaram, inflame também hoje nossos corações. Não queremos entregar, covardemente, o que nossos pais por árduas lutas, com a Palavra, Escritura, sangue e lágrimas nos conquistaram; mas lutar corajosamente contra os ataques e defendê-lo até a morte. Não queremos considerar nenhuma verdade que nos foi revelada de somenos importância, permitindo falsificações. Lembrem: Um pouco de fermento levada toda a massa. (1Co 5.6) Não temam que por causa de nossa luta sejamos taxados de pessoas impiedosas e malvadas. Também Lutero e seus colaboradores experimentaram isso, e mesmo assim ainda hoje milhares de milhares desfrutam da bênção dessas lutas, enquanto eles já descansam nas sepulturas. Mostremo-nos não como degenerados, mas como verdadeiros filhos da Reforma, assim também quando nós, tendo virado pó e cinzas, nossos filhos, netos e bisnetos possam ainda desfrutarão as bênçãos destas lutas pela verdade.

Ainda que nosso nome, devido as lutas pela doutrina pura em nossa igreja, seja difamado entre as pessoas até o juízo final, mas, se perseverarmos fiéis na luta, sendo Deus verdadeiro e justo, por amor a Cristo, no dia do juízo final seremos coroados e entraremos na paz por toda a eternidade. Que alegria, que júbilo será quando nós pobres pecadores, desprezados aqui, repreendidos e odiados, seremos aceitos na incontável multidão dos santos, de Adão aos últimos lutadores que triunfam, diante do trono de Deus. Nestes termos ainda vos conclamo: Sigamos, pois o bom Senhor / com tudo o que nos temos; / e toda angústia, sem temor, / alegres suportemos. / Quem foge à luta aqui, perdeu / o prêmio eteno lá no céu. ( HL 319.7) 

Tradução: Horst R. Kuchenbecker
São Leopoldo, 28/10/2008

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