O “GENIUS” DO PENSAMENTO DE LUTERO


Quem é Deus e quando o conhecemos? Quem somos nós como Suas criaturas?

Martinho Lutero, por vários anos, passou horas de agonia lidando com essas duas perguntas. Ele nunca comentou sobre o seu estado mental quando estava lidando com o dilema da identidade de Deus e da sua própria identidade. Mas, duas coisas são certas: Ele via Deus como um juiz bravo, conforme era descrito em muitos dos altares em que estivera, diante de medo e medo. Ele via Cristo como alguém que descia sobre as nuvens com uma espada na mão esquerda bem maior do que o lírio de paz em seu peito direito. Ele também se via como um pecador que tinha que obter o favor de Deus com seus próprios esforços. Ele tinha que vencer com seu próprio esforço caso quisesse escapar do fogo da eterna ira de Deus.

Caminho para a salvação?

Como muitos outros de seu tempo, Lutero chegou a pensar que tornar-se monge o levaria a solução de seus problemas. Isso fez a coisa piorar. Sua inquietação e incerteza cresciam cada vez mais, e de forma insuportável. Mas tornar-se monge o levou a estudar a Escritura de forma não intencional. O Deus que se revelou em suas páginas o confrontou com a mensagem de Cristo sobre a cruz. Ao encontrar-se face a face com Deus sobre a cruz passa dominar as concepções de Lutero, tanto as de Deus quanto as dele mesmo. Ao pé da cruz, descobriu novas respostas para as questões sobre quem era Deus e quem somos nós como criaturas humanas.

Sem dúvida, Martinho Lutero reconheceu que tanto a bondade de Deus quanto nossa humanidade permanecerão um tanto que misteriosas. Pela primeira vez, Lutero começou a enxergar o que Deus realmente era e também o que significava ser sua criatura humana. Deus toma a iniciativa e se revela a nós pelo presente de Cristo na cruz. Desta maneira, Deus não pode ser conhecido por nós separado da sua relação conosco em Cristo. Igualmente, os seres humanos não desfrutam completamente de sua humanidade fora do temor, amor e da confiança em Deus que vem dialogar com eles como Jesus Cristo.

O encontro de Lutero com o Deus da cruz deu-lhe algumas percepções diferenciadas em nossa relação com Deus. Tais discernimentos podem ser chamados de seu “genius”. Os romanos antigos convidavam o espírito que guiava e dirigia algo e concedia ao seu caráter o atributo de “gênio”. A visão do reformador sobre Deus e a humanidade serviu como o “gênius” em sua forma de pensar.

Duas Deduções Importantes

Duas deduções em particular permearam o pensamento de Lutero sobre Deus que orientou sua leitura sobre a Escritura. Um deles estava no que significava para Deus para ser Deus e o que quer dizer criatura humana, que veio a ser chamado de “as duas espécies de justiça”, ou duas dimensões do ser humano. A outra dedução se preocupava como essas duas dimensões eram estabelecidas e orientadas. Neste tópico, Lutero sustentou que Deus se ocupa da humanidade na conversação conforme Ele vem falar conosco mediante a Palavra que se fez carne, Jesus de Nazaré, e por meio de sua Palavra, a qual nos é dirigida em sua forma oral, escrita e sacramental.

A distinção entre os dois tipos de justiça surgiu enquanto Lutero lidava com a pergunta: “O que pensa Deus de mim?”. Por muito tempo, ele duvidou seriamente se já poderia se encontrar no céu na qualidade de um filho amado de Deus. Por quê? A maioria dos cristãos em seus dias acreditava que nossa identidade repousava sobre a maneira como praticamos a vontade de Deus diariamente. Eles sabiam de alguma maneira que nós somos pecadores, mas também, eles acreditavam que Deus dava sua graça (como esteroides espirituais) de forma que poderíamos abandonar os pecados anteriores, e assim, viver de tal maneira o quanto possível para agradar a Deus com o bem que fazemos. Deus considera o seu povo como o povo dele porque ele se comporta como seu povo.

Os instrutores de Lutero ensinaram-no que Deus concede sua graça somente àqueles que fazem o seu melhor por meio de seus próprios esforços. Em outras palavras, Deus ajuda aqueles que se ajudam. O foco, sobre quão bem se dedicava, colocou um fardo sobre Lutero. Este ônus destruiu sua esperança e alegria, a sua faculdade de amar a Deus e sua capacidade de servir outras pessoas por causa seus professores. Ao contrário, Lutero estava sempre calculando como a sua caridade poderia ser boa para Deus. Ele não pôde confiar em seus próprios esforços para ser justo ou digno, conforme a visão de Deus. Suas tentativas de fazer a vontade de Deus sempre o derrubaram repentinamente. Isso o conduziu ao terror e pânico.

Deus então fala a Lutero a partir das páginas da Escritura com uma mensagem totalmente diversa do que ele tinha aprendido na universidade. Como um típico monge medieval, Lutero tinha bastante contato com a Bíblia. Os monges recitavam os Salmos diariamente e ouviam passagens de outros livros na hora das refeições. A luz alvoreceu para Lutero, como se fosse a primeira manhã, quando sua leitura da Escritura revelou que Deus cria e resgata a humanidade sem condição ou exigência alguma, simplesmente porque Ele é gracioso e a ama.

Lutero entendeu essa mensagem do Evangelho de tal maneira que o levou a diferenciar as duas dimensões da vida humana. Em sua relação com o criador, ele apenas podia receber o dom da identidade como amado filho do Pai Celeste. E em sua relação com o resto da criação, ele era chamado por Deus para agir como um irmão.

Ele chamou esse presente da identidade como filho de Deus como justiça passiva, “a retidão dada por outra pessoa”. Deus nos dá uma nova identidade como seus filhos quando Ele nos ama em Cristo Jesus e nós confiamos nele por causa deste amor. Lutero chamou a ação que Deus espera de seus filhos como justiça ativa, “a justiça que eu me faço”. Deus guia nossa vida dentro da criação ao nos dar instruções sobre a maneira como lidamos com seus dons humanamente dentro de chamados ou lugares onde Ele deseja que sirvamos.

Deus estabelece as duas dimensões de nossa humanidade em seus devidos lugares por meio de sua palavra. Primeiro, Ele fez em sua Palavra criativa conforme deu forma a vida humana. Ele então, (re)estabeleceu nossa humanidade mediante a Sua Palavra (re)criativa que nos chega em Cristo e nos é entregue pela Escritura. Esta Palavra toma forma em nossa proclamação e testemunho, na própria Escritura, em outros escritos que repetem e refletem ensino bíblico, nos Sacramentos do Batismo e da Ceia do Senhor. Deus é, por natureza, um Deus criador, e ele cria ao falar. Assim, as suas criaturas humanas apenas o conhecem à medida que Ele vem conversar com elas. O verbo se fez carne (Jo 1.14) e veio até nós, como “presente” e “exemplo”.

Uma nova identidade

Pela cruz e ressurreição de Jesus, Deus dota-nos de uma nova identidade. Quando a Palavra de Deus chama-nos para longe de basear nossas vidas sobre algo que Ele criou – coisas temporais de nossas vidas – ao invés do próprio Criador, Cristo toma-nos consigo em seu sepulcro. Esta morte para as maneiras pecaminosas acontece decisivamente quando o Evangelho de Cristo nos reclama primeiro, que acontece quando nós estivermos escutando o testemunho de um amigo ou sendo batizados como um bebê. Pela Palavra, Lutero ensinou, Deus põe nossa velha e pecaminosa identidade na tumba de Cristo. Por meio da Palavra Deus nos dá um novo nascimento (João 3.5) e nos liga com Cristo em sua ressurreição. Essa promessa de uma nova vida em Cristo agora determina nossa existência. Fomos ligados a ressurreição para andar em seus passos (Romanos 6.4). Pois Lutero cria que Jesus não somente revela Deus a nós (João 1.18), como também revela o que significa ser humano. Isto significa seguir seu exemplo.

Exatamente por isso, Lutero tinha dois objetivos quando subia ao púlpito: Ele queria ensinar e admoestar. Pelo ensino, ele procurava aplicar a Lei de Deus (que exige nossa justiça) e a do Evangelho de Deus (que livra-nos do pecado e nos concede a promessa de Deus de uma nova vida em Cristo). Já com a admoestação, havia a segurança da promessa, ele procurava mover as pessoas a confiar em Cristo como seu Salvador e que vivessem como filhos de Deus. O ensino trazia a palavra de Deus sobre a nova vida aos ouvidos de seus paroquianos. A admoestação traduzia a promessa na vida diária do povo de Deus e como eles viveriam o Seu amor em função dos outros.

Assim Lutero e seus estudantes proclamavam esta mensagem de Jesus Cristo aos seus paroquianos. Assim o espírito, a genialidade das deduções análogas na natureza de Deus e na do homem de Lutero, guiou ele e o manteve em sua interpretação da Palavra de Deus na Escritura. Lutero descobriu quem era ele como filho de Deus ao descobrir quem era Deus quando se dirigiu à cruz e reclamou Sua vida humana por meio da ressurreição. Em Cristo, Lutero concluiu que era mesmo filho de Deus. Portanto, ele estava determinado a viver sob Ele e sob seu governo, e servi-lo em eterna alegria e paz que origina do conhecimento que ele pertencia a Deus por meio de Jesus Cristo.

Robert A. Kolb and Charles P. Aran.
In: Lutheran Witness, Outubro, 2008.
Tradução: Pastor Aragão.

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