Lucas 6.36-42 – O gesto da misericórdia

           Gestos.  O que gestos querem traduzir?  Bem, eles podem ser uma simples gesticulação sem uma grande expressão, não dizem nada.  Mas conhecemos muitos gestos positivos como também negativos ou ofensivos.  O polegar erguido em direção a alguém demonstra aprovação.  Se acompanhado de um olhar interrogativo, pede informações sobre a vida daquele a quem o gesto é dirigido, se a pessoa está bem.  E gestos negativos há aos montões, entre os quais os gestos obscenos e os gestos acusadores.

            Qual é um dos gestos de acusação mais usado?  É o dedo indicador apontado em direção ao rosto de alguém.  Ninguém quer ver um dedo acusador em sua direção, mesmo que tenha errado.  Este gesto condena, afasta e até revolta.  Mas com quanta freqüência nós usamos este gesto no dia-a-dia!

            E gestos de acolhida, qual é um dos mais usados?  É o dos dois braços abertos em direção a alguém, prontos a envolverem com carinho o corpo daquele a quem os braços se dirigem, pode ser uma criança, um jovem ou um adulto.  É o gostoso ABRAÇO, desde que seja sincero.

            Tenham misericórdia dos outros, assim como o Pai de vocês tem misericórdia de vocês” (v 36).

            O que vocês entendem por misericórdia?  Ela é usada com freqüência ou seu uso é raro?  No linguajar popular esta palavra não é muito freqüente.  Em vez dela aparece a palavra desgastada AMOR.  MISERICÓRDIA é uma palavra composta por duas outras, de origem latina: miserere – ter compaixão – e cordis – coração.  Juntando as duas, forma-se a expressão correspondente à misericórdia, que é COMPAIXÃO DE CORAÇÃO, compaixão que vem das profundezas, que vem das entranhas (intestinos, como diriam os gregos), compaixão real. 

Mas por quem?  A misericórdia ou compaixão de coração sempre se destina e se dirige ao outro, ao próximo, daquele que necessita ser amado, ao invés de ser tratado com aspereza, frieza e dureza, tratado com sentimento de condenação.

            Quem nos trata com um coração compassivo?  O Senhor Deus da graça.  Deus tem eterna compaixão dos pecadores perdidos em pecado e sujeitos à condenação eterna.  Lemos no Salmo 103.8 e 10: “O Senhor é bondoso e misericordioso…. não nos castiga como merecemos nem paga de acordo com os nossos pecados”.  O nosso Deus é um Deus clemente e compassivo.  A cor do coração de Deus, poderíamos dizer, tem a rubra cor do sangue e da compaixão.  É assim que ele nos trata.  É por isso que Deus nos perdoa.  O perdão nunca é algo merecido.  Sempre é uma doação, seja Deus nos perdoando, seja um cristão perdoando a quem o ofendeu.  Repetimos: O PERDÃO NUNCA É ALGO MERECIDO !

            Em cima deste fato é que Deus espera e requer que os que foram e são alvo deste sentimento profundo de Deus revelem e provem que a compaixão de Deus os atingiu e atinge.  Jesus está falando o nosso texto, dentro do Sermão do Monte, a pessoas que crêem nele, gente renascida, gente que tem na alma as marcas do perdão.  Por isso, cristãos se diferenciam em sua vida das pessoas que não conhecem este coração paternal de Deus, do coração rubro de amor de Deus para com quem merece o inferno.  Em vez de dar de dedo, pessoas que são alvo do coração compassivo de Deus abrem os braços, não interessa em direção de quem quer que seja, como Jesus abriu seus braços sobre a cruz.

            Em que, na aparência, os cristãos fundamentalmente se diferenciam dos não cristãos?  No seu comportamento, na sua postura e no tratamento que dispensam aos outros.  Este nosso texto é um texto de desafio da parte de Jesus aos que nele crêem.  É ali que o mundo descrente vê e percebe a diferença, e é ali que cristãos provam que são cidadãos dos céus.  De maneira muito incisiva e marcante se percebe isto no exercício da MISERICÓRDIA, da demonstração do abraço antes de mais nada e acima de tudo, em vez do dedo erguido.  É a fé em ação que Jesus quer ver.

            O exercício da misericórdia se percebe em relação aos mais fracos, aos que falharam ou falham, aos necessitados, aos sofredores e aflitos, aos quais Jesus desafia a demonstrar profundos sentimentos de empatia, atrás dos quais se “ esconde” um coração cheio de misericórdia.

            O mundo não se trata com este tipo de comportamento, mas com ódio, vingança, fofocas, abusos, exploração, do dar de dedo.  Estes termos e práticas o mundo pagão conhece muito bem.  Só que este “mundo pagão” mostra suas marcas também nas atitudes dos cristãos.  Não fosse isso, Jesus teria, como se diz, “botado conversa fora”, não faria sentido o nosso verso lido e nem o Sermão do Monte teria sentido de certa forma.

            É para este lado tão prático da vida de cada dia que Jesus estimula a sua igreja – a mim e a você – a se exercitar mais e mais, Jesus quer o quanto mais possível deixemos de dar de dedo e abramos os braços a convidarem a dar um abraço.  É para este lado prático que Jesus seriamente chama a atenção de seus seguidores a provarem a sua fé e seu amor ao próximo.  É aqui que cristãos, quando baixam o dedo acusador e abrem os braços carinhosos, mostram a diferença, provam que são diferentes, porque é o amor DE Deus e o amor A  Deus que neles age como força motriz, bem diferente do que os sentimentos das paixões carnais, que movem, impulsionam e movimentam o mundo pagão.

            Seguidores de Cristo, agindo pelo princípio da fé em Cristo, agindo de acordo com o princípio da misericórdia, não devem tratar seus irmãos mais fracos com espírito de dureza e aspereza.  Ser misericordioso, diz Cristo, em primeiro lugar é não “baixar o porrete” em cima de alguém que errou.

            A tendência humana, quando alguém faz alguma coisa errada, é imediatamente erguer o dedo da crítica, da cobrança e da condenação em direção ao nariz do faltoso, é condena-lo sem compaixão.  Se isto não fosse verdade também nos meios cristãos, entre os seguidores de Cristo, Jesus teria perdido seu tempo com esta advertência.  Se nós cristãos não estivéssemos sujeitos a falhar na aplicação da misericórdia, não faria sentido Jesus pregar o longo Sermão do Monte (3 capítulos em Mateus).

            Olhemos para o nosso meio familiar.  Quantas vezes pais e mães condenam e julgam filhos antes mesmo de se certificarem, antes de saberem se sua suspeita confere com a atitude dos filhos.  Já aí houve julgamento precipitado, que Jesus qualifica como preconceito.  Preconceito sempre é pecaminoso, sempre é erguer o dedo de acusação sem nem ao menos saber se a suspeita tem fundamento.  Quantas vezes cônjuges suspeitam de seu par e, antes mesmo de qualquer verificação no sentido de saber se suas suspeitas não são apenas fantasias oriundas de um sentimento de insegurança, já erguem o dedo….

            Olhemos para o nosso meio congregacional.  Quantas vezes membros são julgados por outros, pelo pastor, pela diretoria; pastor ou membros da diretoria são julgados e difamados, antes mesmo de se levantar fatos.  E assim, juízos condenatórios e espírito crítico são bem o contrário do exercício da misericórdia.  Nega-se com isso o amor de Deus e se comprova no gesto acusador as puras e diabólicas paixões carnais, tão presentes também em nossos corações sempre tão inclinados ao mal.  Entre os próprios apóstolos de Cristo muitas vezes este espírito condenador se manifestou.  Que dirá de nós!

            Ajam com MISERICÓRDIA com os que erram e precisam ser recuperados e erguidos.  O dedo acusador, se antes não houver um abraço acolhedor, este dedo vai fazer muito mais estrago ainda na vida de quem errou e está por baixo.  O dedo acusador em vez do abraço acolhedor vai empurrar um faltoso para o fundo da cova, enquanto que o agir em misericórdia, agir movido por um coração compassivo, este ergue, levanta, promove o salvamento e a libertação, e assim faz a diferença que o mundo quer ver nas atitudes, na postura e no comportamento dos cristãos.

            É claro que não podemos e nem devemos fechar os olhos para com os erros de quem pecou.  A Bíblia está cheia de recomendações no sentido de admoestar e advertir quem vive em pecado, para que o pecador saiba do juízo de Deus sobre uma vida incorreta.  “Vai adverti-lo” disse Jesus (Mt 18).  Mas faça isso com um espírito de amor e não de condenação.  Antes de tentar levantar o dedo no rosto de quem errou, vá e sente-se do lado dele, dê-lhe um abraço; que o seu rosto demonstre a compaixão de Deus.  Aí o caminho estará aberto para o aconselhamento.  Muitas vezes nos damos mal, e isto eu, como pastor, infelizmente já senti muitas vezes, que já erguemos o dedo antes de abrir os braços.  E assim a oportunidade para admoestar se fecha.  O espírito arrogante e condenatório, que os discípulos de Jesus conheciam muito tem nas atitudes dos fariseus, nunca ou difícil-mente traz algum proveito.  Só estraga mais ainda.

            Também temos que agir com misericórdia quando nós somos vítimas, quando sofremos acusações.  Eu diria que é neste campo pessoal que se pode verificar facilmente se somos tocados pela misericórdia de Deus ou não.  Quando atingidos por alguma difamação por parte de alguém, quando outros tentam nos prejudicar na reputação, é nestas circunstâncias que vemos tão ligeira-mente se somos tomados e governados por grande ou por pequena medida da misericórdia de Deus, ou nenhuma.

            Como exercitamos a misericórdia para com os que nos ferem e tentam nos prejudicar?  PERDOANDO-OS, agindo como o próprio Jesus agiu no alto da cruz, quando pediu perdão para os seus algozes.  Se pensarmos bem, não houve nenhum outro lance que revelou mais compaixão de Cristo do que este, quando Jesus pediu ao Pai que não levasse em conta o erro de todos os que o crucificaram, a começar pelos arrogantes sacerdotes.

            Misericórdia não é algo que se exerce à distância.  Ela acontece no inter-relacionamento das pessoas.  Também não é nenhuma troca de favores.  Jesus pergunta na seqüência de nosso texto: Qual é a diferença entre crentes e não crentes quando fazem de conta que se amam, fazendo favores uns aos outros?  Isto não prova coisa nenhuma.

            Os cristãos são os grandes favorecidos com o amor de Deus, que eles não merecem.  Ninguém merece o amor e nem o perdão de Deus.  Por isso cristãos podem, movidos pelo amor de Deus, agir em compaixão em relação aos que dela carecem.  Cristãos têm a paz de Cristo; eles têm o perdão; eles têm firmeza na esperança e a esperança da vida eterna, e têm um Deus que os acolhe, sustenta e guia.  Quando pessoas do seu relaciona-mento pecam, caem e dão deslizes, cristãos, por terem um coração segundo o coração de Deus, perdoam em vez de agirem com aspereza em troca do ferimento que alguém lhes causou.

            Estejamos sempre lembrados que o Sermão do Monte foi direcionado aos cristãos.  E ele está cheio de admoestações e desafios.  È preciso sufocar e afogar o velho homem, a natureza pecaminosa em cada um de nós por meio do arrependimento e reconhecimento de nossas inclinações ao mal.  Estamos também sujeitos a cairmos em erros e sempre precisamos do diário perdão de Deus sobre os nossos pecados.

            Como vai o exercício da misericórdia, como vai a demonstração de nosso comportamento em casa?  É duro?  É.  É duro, sim, termos sempre um coração segundo o coração de Deus.  O modelo é Jesus Cristo.  O poder para imitarmos Jesus no exercício do abraço em vez da prática do dedo acusador está no segredo da fé fortalecida no amor de Cristo.

            Tenhamos a humildade para reconhecer nossas falhas, tenhamos a humildade, tenhamos o espírito de Cristo em pedir perdão onde erramos e perdoar onde outros erraram contra nós.

            O espírito de Cristo esteja em nós, nos capacitando a também termos um pedacinho do coração de Deus: Tratando a todos com MISERICÓRDIA.  Amém.

Rev. Heldo Bredow – Curitiba

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