10 de Junho – Dia do Pastor

A Ressaca do Pastor

Era segunda-feira de manhã. O pastor fora cedo ao seu gabinete de

estudo. No seu rosto se estampava preocupação, tristeza e desânimo. Em sua

mente se travava uma violenta luta entre a fé e a incredulidade. Era um

daqueles dias de ressaca, até não muito raros na vida de um pastor.

Grande insatisfação consigo mesmo, o martirizava. Sentia-se incapaz e

incompetente. Sentou-se a meditar e orar. Interrogava a Deus e não podia

esconder certa revolta contra os caminhos de Deus. Desconfiava de sua

própria fé. Será que creio de fato? Onde está o poder da fé? Onde está o

poder da Palavra? Será que Deus me abandonou. Bem o mereço.

Por que me tornei pastor? Deveria ter abraçado outra profissão. Será

que Deus me escolheu de fato ou a decisão foi um ato de atrevimento meu?

Será que estou no lugar certo? Meu chamado é a expressão da vontade divina

ou foi de certa forma minha cobiça? Por que Deus não me concede dons

melhores? Por que preciso perder tanto tempo na elaboração de um sermão ou

estudo bíblico? Já estudei tanto, mas esqueço tudo e preciso recomeçar

sempre de novo. Por que ainda caio em tantos e tantos erros e pecados.

Lutou até com certo remorso do seu sermão de ontem. Fui um fracasso total.

Acho que um dia a comunidade me mandará embora. Ainda ontem perdi a

paciência com alguns membros e fui áspero com eles. Domingo de manhã pedi a

Deus insistentemente sabedoria e bênção para o culto, mas parece que Deus

não me ouviu.

Por que tudo é tão difícil no ministério. Outros falam com tanta

facilidade, gabam-se do poder do Espírito Santo e de suas realizações, mas

eu não tenho nada disso.

Enquanto meditava, dialogava e discutiu assim com Deus e consigo

mesmo, folhava, vez por outra, a Bíblia na busca de uma luz, de um consolo.

Deparou então com um versículo: "Quando eu digo: Resvalou-me o pé, a tua

benignidade, Senhor, me sustém. Nos muitos cuidados que dentro em mim se

multiplicam, as tuas consolações me alegram a alma." (Sl 94.18,19) Ele

procurou compreender que consolação era essa. Notou que toda a força do

consolo está na graça de Cristo. O perdão nos consola. Nosso consolo não

está em nossas obras, realizações ou nosso poder. Lembrou-se como muitos

servos de Deus se queixaram amargamente de suas fraquezas e como todos

desejavam a completa libertação e ansiavam pelo dia no qual estariam livres

de sua natureza pecaminosa. Compreende melhor a palavra: "A minha graça te

basta." Importa confiar na palavra da graça. Enquanto estamos na carne,

precisamos lutar. Também os dias de nosso ministério são "canseira e

enfado". Não compreendemos os caminhos de Deus, mas sabemos que Deus nos

dirige sabiamente. Compreendeu que tudo é graça, também na vida

santificada. E que a vida santificada não se mede por nossas realizações,

por nossa satisfação ou vitórias, que julgamos ter alcançado, mas está

firmada na graça de Cristo. E a certeza do perdão não advém de nossas

experiências, mas do evangelho e dos sacramentos. Oh! Maravilhosa graça.

Lembrou-se então do hino: "Eu sei que Deus é sabedor das minhas faltas, meu

temor, mas pronto está a me valer, de todo o mal me proteger." (HL 414,

recitado conforme uma tradução antiga) Cristo que há pouco lhe parecia bem

distante, estava novamente bem presente. Que consolo.

Se Cristo muitas vezes desaparece de diante de nós e parece

ocultar-se, ele o faz unicamente para nos manter humildes, para nos guardar

do orgulho, levar-nos ao arrependimento, fazer-nos ver que tudo é graça,

sem nenhum merecimento ou dignidade de nossa parte. Somo mendigo, disse

Lutero, falando em fraqueza a fracos mendigos da riqueza que nos é confiada

por Cristo, que nos alegra. Este reconhecimento é obra do Espírito Santo. O

Espírito Santo glorifica Cristo em nossos corações. Reconhecer a graça de

Cristo, alegrar-se na graça de Cristo é estar cheio do Espírito Santo.

Ele compreendeu também que, mesmo sendo nosso dever buscar crescer

sempre na fé e na vida santificada, o grau de fé difere de pessoa para

pessoa. O grau de fé pertence às coisas a respeito das quais pedimos: "Seja

feita a tua vontade." Em seus caminhos insondáveis, Deus concede medida

diferente de fé. E nosso consolo, nossa alegria não está no grau de fé, no

grau de nossa vida santificada, no número de realizações e vitórias que

julgamos ter obtido, mas unicamente na graça de Cristo. E para evitar que

nos envaideçamos, Deus, por vezes, oculta sua graça de nós. Então caímos em

profunda tristeza e desespero. Reconhecemos nossa pecaminosidade e

nulidade, para voltar arrependidos à graça e nos alegrar nela.

Enquanto o pastor voltava a ser reerguido pela graça e agradecer por

ela a Deus, alguém bateu à porta.

– Entre – disse ele. Era a senhora Jussara.

– Bom dia, pastor.

– Bom dia Dona Jussara. Em que posso lhe servir?

– Não, nada. Estava passando por aqui, então me lembrei em lhe agradecer

pelo sermão de ontem. Sabe, pastor, tínhamos muitas perguntas sobre este

assunto que o senhor abordou no sermão, a Predestinação. O senhor foi muito

feliz em seu sermão. Após o culto comentei com várias pessoas, todos

gostaram muito. Vim lhe agradecer e pedir se possível voltar a esse tema na

próxima reunião do Departamento Feminino. É possível?

– Pois, não. Alegro-me em ouvir isso.

Após alguns comentários, a senhora Jussara se despediu. O pastor

estava refeito. Ao levantar a cabeça, seus olhos caíram sobre seu chamado

emoldurado na parede. Leu-o, novamente e disse: Amém. Sim, Deus quer que eu

trabalhe aqui, apesar de minhas fraquezas. Seus poder se aperfeiçoa na

fraqueza. Nós não nos firmamos em nosso saber e nossos dons, mas na

Palavra, pela qual o Espírito Santo trabalha "quando e onde lhe apraz".

Assim é a vida não somente do pastor, mas de todo o cristão. Há lutas,

há fraquezas. Nossa carne nos dá trabalho cada dia. E nossa consciência nos

acusa. Nestes momentos, em que a consciência nos acusa de pecados, cabe nos

buscar refúgio na graça de Cristo. Pois pecados não se trata com conselhos,

nem com bons propósitos. O pecado precisa morrer, por confissão e

arrependimento e o novo sair e ressurgir, pela força do evangelho, novo

homem, que viva em justiça e pureza diante de Deus eternamente.

Que privilégio ser pastor. Poder descansar cada dia em Cristo. A ele

levamos nossas preocupações, fracassos e ansiedades. Ele nos dá descanso. –

Abençoado Dia do Pastor.

São Leopoldo, 09/06/2008

Horst R. Kuchenbecker

Uma resposta para 10 de Junho – Dia do Pastor

  1. RUBAO disse:

    Obrigado por estas palavras do Dia Pastor, me fez pensar sobre a minha vocação tbem e valorizar a Graça do Deus misericordioso…

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